O “apagão” de R 37 bilhões no mercado de FIDCs

Estudo feito pela Uqbar mostra lacuna bilionária com atrasos na divulgação de informes mensais de fundos de direitos creditórios. Comportamento recorrente deixa investidores no escuro e chama atenção da CVM, Classe de fundos que mais cresceu no Brasil nos últimos anos, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) são conhecidos por suas estruturas complexas…

Classe de fundos que mais cresceu no Brasil nos últimos anos, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) são conhecidos por suas estruturas complexas envolvendo diferentes tipos de recebíveis.

Mas, neste momento, a complexidade se somou a uma espécie de “apagão”. Os atrasos na divulgação de informes mensais de FIDCs têm se tornado recorrentes nos últimos meses e demandado uma postura mais ativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

O documento, que traz informações como patrimônio, volume de crédito e nível de inadimplência, é a principal referência para quem faz o acompanhamento regular dessas carteiras.

De acordo com um levantamento da Uqbar feito a pedido do NeoFeed, 76 FIDCs ainda não haviam reportado os dados de fevereiro até 10 de abril, sendo que o prazo para entrega era até 15 de março.

O buraco é de R$ 37 bilhões, considerando o último patrimônio líquido reportado pelos fundos. O volume corresponde a 5% de toda a indústria de FIDCs e a 50% de toda a captação líquida do ano passado.

O estudo considerou apenas os FIDCs ativos e que haviam reportado informes mensais em novembro, quando os atrasos começaram a se agravar, segundo Alfredo Marrucho, sócio da Uqbar.

Marrucho acompanha o mercado de FIDCs há mais de 10 anos e afirma que a inadimplência na entrega dos informes é algo inédito, principalmente nessas proporções.

Algumas administradoras alegaram que a virada do ano teria atrapalhado, mas o argumento não se sustenta, já que no início de 2025 não houve o mesmo volume de atrasos.

A Reag, atualmente em liquidação pelo Banco Central, é a administradora com o maior número de FIDCs que não entregaram os dados de fevereiro, com 37 fundos. A Planner vem na sequência, com 11 FIDCs com informes atrasados.

Dos 76 FIDCs que não publicaram balanços de fevereiro, 30 estavam com pelo menos dois informes atrasados. Outros 39 deixaram de apresentar os informes de dezembro e janeiro.

Essas lacunas têm se tornado cada vez mais frequentes e atrapalhado o acompanhamento da indústria. Mesmo com os FIDCs captando, houve queda de patrimônio devido aos atrasos nas divulgações, o que reduz a visibilidade do tamanho real do mercado.

Dos FIDCs que ainda não apresentaram o balanço de fevereiro, o maior é o ANNA FIC FIDC Não Padronizado. O fundo, administrado pela Reag e gerido pela CBSF Trust, reportou patrimônio líquido de R$ 15,7 bilhões em dezembro.

Criado no fim de 2023, o fundo investia principalmente em cotas de outros fundos e nunca teve demonstração financeira auditada. Dos R$ 37 bilhões que estão sem atualização, os fundos administrados pela Reag respondem por R$ 23,66 bilhões.

A Reag está com problemas operacionais. O Banco Central, na liquidação, está de olho nessas carteiras, muitas delas sem lastro adequado.

Esses atrasos podem estar gerando um efeito cascata. Se um FIDC não envia informação, outro fundo que investe nele também fica sem dados suficientes para contabilizar sua carteira.

Um dos fundos da Reag com problemas é o Rover FIDC, que teve exposição relevante a créditos cedidos pela EntrePay antes da instituição entrar em liquidação pelo Banco Central.

Como reflexo da liquidação da EntrePay, a gestora Redwood suspendeu um de seus fundos para resgate no início do mês. Outros dois fundos da gestora também estão com pagamentos atrasados há meses.

CVM em alerta

Os recorrentes atrasos na entrega de informes mensais também chamaram a atenção da CVM. Diante do problema, a autarquia chegou a publicar um ofício no início deste ano, reforçando que os atrasos estão sujeitos a multas automáticas de até R$ 60 mil por fundo.

No ofício, a CVM informou que “tem recebido um volume expressivo de recursos interpostos pelos administradores” devido às multas aplicadas pelo atraso ou não entrega das informações.

Há preocupação de que os controles internos das administradoras não estejam adequados para identificar atrasos e contabilizar, de forma tempestiva, as provisões e despesas para o pagamento futuro das multas.

Para um empresário do ramo de FIDCs, a falta de transparência na publicação dos informes tem gerado um risco reputacional “imenso” para a indústria.

“Há um temor enorme, inclusive, entre grandes empreendedores do mercado de fintechs. É uma classe que tem se tornado cada vez mais institucional e um mau administrador atrapalha toda a operação”, diz ele.

Há também o temor de que os dados publicados possam não refletir exatamente a realidade das carteiras.

O cenário deve levar a um endurecimento regulatório da CVM nos próximos anos, com maior supervisão sobre administradores e gestores.

A Planner afirmou que os FIDCs em atraso são fundos recentemente transferidos de outros administradores e que estão em processo de regularização.

A Redwood informou que suspendeu temporariamente os resgates para proteger os cotistas após interrupção de repasses e que prepara um plano de reestruturação.

A Reag não se manifestou até o encerramento da reportagem.

Fonte: Neo Feed

Tudo Sobre FIDCs

O seu portal de notícias e análises sobre o mercado de FIDCs. Reunimos, diariamente, as principais informações sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, mercado de capitais e crédito.

Acompanhe as movimentações, tendências e estratégias que moldam o universo dos FIDCs.

Tudo Sobre FIDCs: conteúdo inteligente para quem acompanha o mercado de FIDCs

O quão foi útil este conteúdo pra você?

Fique por dentro
das principais notícias do mercado financeiro.

    Últimas notícias: