Vivemos um momento curioso onde o sistema financeiro brasileiro está, em linhas gerais, capitalizado, líquido e resiliente. O Banco Central confirma que a confiança no Sistema Financeiro Nacional está em patamares muito altos, cerca de 80% das instituições declaram muita ou total confiança na resiliência do sistema; e os testes de estresse mostram robustez. Ainda assim, as empresas de maior porte estão reduzindo sua dependência do crédito bancário tradicional, deixando cada vez mais evidente uma mudança estrutural.
Há duas leituras que precisam ficar claras desde o início. A primeira: não faltam recursos no sistema financeiro; há capital e liquidez suficientes para o funcionamento regular. A segunda: o canal pelo qual o capital chega às empresas mudou. Empresas sofisticadas, com governança, fluxo e previsibilidade de caixa, têm preferido mercados de capitais, debêntures e estruturas como FIDCs em vez do relacionamento tradicional com o banco.
O Relatório de Estabilidade Financeira de novembro registra essa migração e mostra seus efeitos nas estatísticas de crédito.
O que os dados do REF nos dizem
O crédito bancário às empresas, no geral, desacelerou no primeiro semestre; para grandes empresas, o crescimento em junho/2025 foi o menor desde meados de 2024. Essa queda ocorre em paralelo ao crescimento acelerado do mercado de capitais, que ganha representatividade como fonte de financiamento.

Debêntures e títulos privados mantêm forte demanda; a combinação entre demanda crescente e oferta moderada tem comprimido spreads e sustentado o dinamismo do mercado de capitais. Em outras palavras, vemos que há investidor disposto a comprar crédito corporativo bem precificado.


Enquanto isso, ativos problemáticos (APs) subiram entre micro, pequenas e médias empresas; nas grandes empresas, não há tendência clara de piora na qualidade da carteira de crédito, o risco está concentrado na base, não no topo da pirâmide.
Por que as grandes estão saindo dos bancos
Existem três fatores que podemos apontar como a causa dessa mudança estrutural que está em curso:
Custo e eficiência: o mercado de capitais, quando bem estruturado, permite alongamento de perfil da dívida e preços competitivos, especialmente em contexto em que investidores institucionais buscam rendimento real em títulos privados. Debêntures, FIDCs e emissões estruturadas se tornam alternativas naturais para captações acima de patamares bancários tradicionais.
Seleção e especialização: com o aperto nas condições financeiras, os bancos ficaram mais criteriosos (menor apetite ao risco). Isso eleva o custo e o atrito para operações bancárias, especialmente para empresas que precisam de formatos e prazos customizados. As empresas que já conseguem apresentar fluxo previsível e governança preferem acessar investidores diretos.
Diversificação de funding: depender de um único canal gera risco de concentração. Grandes companhias optam por equilibrar funding entre bancos e mercado de capitais, reduzindo risco de rolar dívidas e tornando o passivo mais resiliente a mudanças regulatórias ou de aversão ao risco bancário.
O que podemos concluir
Estamos saindo do cenário em que obanco era o caminho inevitável para o financiamento corporativo. Hoje, grandes empresas mostram que é perfeitamente racional acessar um capital mais robusto e alinhado às suas reais necessidades, uma combinação de melhor preço, maior previsibilidade e diversificação de risco. O mercado de capitais não substitui os bancos, ele complementa.
Para quem lidera finanças corporativas, o recado do Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central é: não espere que o crédito caia do céu via relacionamento bancário. Busque opções mais vantajosas no mercado de capitais. Quem fizer isso, encontrará não apenas funding em condições mais atrativas, mas oportunidade de transformar custo de capital em vantagem estratégica.
Autor: Volnei Eyng
Fundador e CEO da Multiplike, uma gestora de recursos com 25 anos de história e mais de 30 bilhões de crédito cedido.
Sócio benemérito da ABRAFESC;
Graduado em Administração e Economia;
MBA na HSM Management em Gestão de Negócios;
MBA em Macroeconomia.
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