Fundos de direitos creditórios dedicados a empresas de médio porte triplicaram desde 2023

Em janeiro deste ano, o Cerus, garantidora que atende cerca de 1,3 mil condomínios residenciais e comerciais em 18 Estados, inaugurou escritório em São Paulo atenta às oportunidades de antecipação de recebíveis para o segmento condominial. Com faturamento de R$ 90 milhões em 2025, a empresa, que tem sede em Fortaleza e licença para atuar como instituição financeira, planeja investir R$ 150 milhões na expansão nacional nos próximos dois anos, em operações no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.
Luciano Magalhães Macedo, fundador e CEO do Cerus, projeta uma movimentação financeira superior a R$ 1 bilhão até o fim deste ano. Criado em 2020, o Cerus escalou o crescimento nos últimos três anos, a partir da decisão de negociar sua carteira de recebíveis de cotas de condomínios em fundos de investimento em direito creditório (FIDCs). Os recebíveis do Cerus compõem os fundos Cerus Fundo de Investimento em Direitos Creditórios e Cerus NP Fundo de Investimento em Direitos Creditórios. Macedo diz que o negócio emite cerca de 200 mil boletos por mês, o que significa recorrência mensal próxima a R$ 100 milhões em direitos creditórios.
“Esses recebíveis são cedidos ao FIDC, veículo estruturado para aquisição e financiamento dos ativos, proporcionando liquidez e capacidade financeira para sustentar o plano de crescimento da companhia. A estrutura conta com investidores institucionais relevantes, entre eles M7 e Mirabaud, e tem como gestora a Polígono Capital, uma das principais plataformas independentes de crédito estruturado do país”, afirma Macedo.
É uma operação que exige cuidado. Os créditos têm de existir, estar bem documentados e serem passíveis de cessão de cobrança”
— Renan Granja
A estratégia do Cerus faz parte de um movimento do segmento de médio porte que vem chamando a atenção no mercado de capitais. Levantamento feito com exclusividade para o Valor, pela Galapagos Capital, companhia global de investimentos, mostra que, entre março de 2023 e março de 2026, os FIDCs dedicados a médias empresas mais que triplicaram.
O estudo aponta 1.182 novos fundos criados nos 12 meses encerrados em março deste ano. Desse total, 222 FIDCs têm uma característica comum. Uma determinada empresa concentra, pelo menos, 20% dos direitos creditórios ao fundo. Nesse grupo, 151 fundos estão relacionados a cessões de direitos creditórios de companhias de médio porte. Para o estudo, a Galapagos levou em conta o critério do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que considera empresas de médio porte aquelas com faturamento anual entre R$ 4,8 milhões e R$ 300 milhões.
O estudo também mostra que a evolução do patrimônio líquido (PL) dos FIDCs dedicados a médias empresas superou o ritmo de crescimento dos fundos voltados a grandes empresas: passou de R$ 8,9 bilhões para R$ 46,6 bilhões nesse período – um aumento de 423%. Nos fundos concentrados em grandes empresas, o PL era R$ 70,5 bilhões, em março de 2023, e chegou a R$ 122,7 bilhões, em março deste ano, alta de 74%.
Na análise da Galapagos, as empresas de médio porte da área de serviços financeiros e tecnologia, como é o caso do Cerus, compõe um dos grupos que mais cresceram na participação em FIDCs nos últimos três anos. Nesse setor, havia oito fundos em 2023, passando para 29 em Mariano Vieira, responsável pela área de crédito estruturado do banco de investimento da Galapagos Capital, relaciona o avanço dos fundos dedicados a médias empresas à combinação de mais conhecimento sobre o funcionamento do mercado e a disponibilidade de capital para desenvolver estratégias com esse produto. Além do ambiente de taxa de juros alta, que faz as empresas buscarem soluções de financiamentos, diz Vieira.
Entre as vantagens de ter um FIDC dedicado para o segmento de médio porte, Vieira observa que se trata de uma estrutura de capital mais adaptada à realidade do negócio, com a possibilidade de a empresa e seus acionistas participarem da cota subordinada. “As empresas estão percebendo que, ao antecipar recebíveis cada vez com um fundo diferente de terceiros, elas estavam eventualmente perdendo dinheiro na mesa”, ressalta.
A estratégia com FIDCs concentrados também favorece as médias empresas quando buscam por financiamento em outras fontes, como os bancos. Vieira diz que o fato de a empresa ter um FIDC facilita a discussão de dívidas com um banco, por exemplo, porque a instituição percebe que não é a única fonte de financiamento da empresa.

“Se a empresa quiser acessar mais recursos, o fundo pode emitir mais cotas, antecipar mais recebíveis da empresa. Se a carteira estiver saudável, o fundo tem um histórico positivo para viabilizar novas captações”, diz.
Para Natasha Giffoni Ferreira, sócia do escritório Volk & Giffoni Ferreira Advogados, o FIDC pode ser uma alternativa eficiente, mas não deve ser tratado como uma solução automática. A advogada observa que é necessário analisar a relação custo-benefício e a segurança jurídica.
“Os FIDCs não necessariamente substituem o crédito bancário tradicional. Em muitos casos, funcionam como alternativa para empresas com limites de acesso ao sistema financeiro. O ponto central é avaliar se a estrutura faz sentido para a realidade da empresa, considerando custos, governança e a qualidade dos recebíveis envolvidos na operação”, observa Ferreira.
Renan Granja, sócio da área de mercado de capitais do FAS Advogados, vê o FIDC como uma ponte com o mercado de capitais para companhias médias, que muitas vezes ainda não acessam debêntures ou outras estruturas mais sofisticadas em condições competitivas. “Mas é uma operação que exige cuidado. O ponto jurídico central é o lastro: os créditos precisam existir, estar bem documentados e serem passíveis de cessão de cobrança”, diz.
Fonte: Valor Econômico
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