Crédito privado: fuga para a qualidade favorece saneamento e energia

Debêntures de infraestrutura, CRAs das maiores empresas do agro e CRIs com patrocinadores sólidos concentraram a liquidez do mercado secundário em junho, mostram dados da Quantum Finance O investidor de crédito privado ficou mais seletivo, como indica o predomínio dos títulos de distribuidoras de energia e empresas de saneamento no mercado secundário em junho. O…

O investidor de crédito privado ficou mais seletivo, como indica o predomínio dos títulos de distribuidoras de energia e empresas de saneamento no mercado secundário em junho. O volume de negociação de debêntures (excluídas as incentivadas) caiu 37% em relação a maio, enquanto o das incentivadas recuou 4,2%. Na direção oposta, os certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) e do agronegócio (CRAs) registraram altas de 16,7% e 2,6%, respectivamente.

Os dados da Quantum Finance, à primeira vista, poderiam sugerir certo desinteresse pelas debêntures. Gestores ouvidos pelo Valor Investe, no entanto, apontaram o contrário: a queda no volume negociado refletiu a demanda maior do que a oferta e a recuperação dos preços dos papéis.

“A menor intensidade dos resgates, somada aos pagamentos de juros, amortizações e recompras de títulos, aumentou a necessidade de alocação dos gestores”, afirmou Helena Lage, gestora de crédito privado da Inter Asset. Segundo ela, com o baixo volume de emissões no mercado primário, a pressão da demanda ficou concentrada no secundário.

“Em cenários como esses, é natural que os vendedores recuem, elevando os preços pelos quais aceitam vender seus ativos, e o volume de negociação caia”, diz.

Para Marcus Codeceira, por outro lado, o movimento refletiu mais uma questão de composição técnica da demanda do que uma fuga generalizada do crédito corporativo. O diretor de fundos de crédito privado da Yards Asset lembra que o apetite a risco no Brasil, como um todo, piorou em junho – a bolsa caiu, o real se desvalorizou e os prêmios de risco locais aumentaram diante do cenário fiscal e eleitoral.

“O que descolou dessa piora foi, especificamente, o crédito privado de melhor qualidade. O mercado não ficou mais tolerante a risco de forma ampla, ele ficou mais seletivo dentro do próprio crédito privado”, afirmou.

Energia e saneamento no topo

Entre as debêntures, os setores de energia elétrica e saneamento dominaram tanto por volume de negociação quanto por número de negócios.

Lage, da Inter Asset, avalia que o momento está especialmente interessante para os papéis indexados ao IPCA das empresas de infraestrutura, porque a elevação da curva de juros incrementa as taxas nominais dessas debêntures sem comprometer o risco de crédito do emissor.

“Essas companhias possuem receitas previsíveis e garantidas, indexadas à inflação, vinculadas a contratos de longo prazo e altamente reguladas”, diz. Segundo a gestora, o fato de as dívidas dessas empresas serem atreladas à inflação funciona como um mecanismo de proteção natural em relação ao faturamento, o que também resguarda do atual patamar elevado da Selic.

Codeceira, da Yards Asset, entende que a concentração tem também uma explicação estrutural: energia e saneamento respondem, historicamente, pela maior parcela das captações via debêntures incentivadas, já que a própria Lei 12.431 direciona o benefício fiscal a projetos de infraestrutura. “Parte do que se observa não é só um comportamento defensivo pontual do investidor, mas o reflexo da composição setorial que já caracteriza esse mercado”, afirmou.

Debêntures (junho)

Por volume financeiro (R$ milhões)    
Código Empresa Volume (R$ mi)
CGOS15 Equatorial Goiás 1.362,4
OVSAB1 Unidas Locações 1.010,3
RENTC8 Localiza 936,4
TQMR11 Ultracargo 911,0
CSANA2 Cosan 843,8
CEEBD1 Coelba 800,7
AESLC2 RGE Sul 797,8
VAMOA1 Vamos 758,1
AGPT11 AG-08 Participações 754,1
CERT11 Ecovias Raposo-Castelo 743,8
Por número de negócios    
Código Empresa Nº de negócios
SBSPJ8 Sabesp 5.241
ELET14 Eletrobras 2.688
EQPA18 Equatorial Pará 2.100
VALEC1 Vale 1.946
UNEG11 GNA I 1.879
IRJS14 Iguá 1.817
PEJA23 Prio Forte 1.768
RISP12 Águas do Rio 1 1.753
TRPLA7 ISA Energia Brasil 1.638
CHSF13 Chesf 1.617
     

Agro: liquidez concentrada nos gigantes

Entre os CRAs, os mesmos nomes têm reaparecido desde março entre os mais negociados, caso de São Martinho, Cocal Canaã, Klabin e SLC Agrícola, entre outros.

Para Codeceira, a crise observada em segmentos específicos do agronegócio aumentou a diferenciação entre os créditos, e a liquidez passou a se concentrar nos emissores mais conhecidos, com histórico de mercado e maior capacidade de geração de caixa.

O gestor da Yards ponderou, no entanto, que parte do fenômeno pode estar mais associada a um aprofundamento pontual da iliquidez nos emissores menores do que a uma reavaliação negativa e deliberada do crédito.

“A recuperação das taxas em junho não foi uniforme. Os segmentos de melhor rating já voltaram aos níveis pré-crise, enquanto o segmento ‘high yield’ [papéis com risco e retorno elevado], onde tendem a estar os emissores menores, ainda segue com taxas bastante deslocadas”, disse.

O setor continua estratégico para o mercado de crédito, mas a análise de risco tornou-se significativamente mais criteriosa, afirma Lage. Ele observou que, dentro de setores mais cíclicos, como este, a demanda se concentra em participantes com maior capacidade de navegar o cenário atual.

Certificados de Recebíveis do Agronegócio (junho)

CRAs, por volume financeiro (R$ milhões)    
Código Empresa Volume (R$ mi)
CRA025008HM Cocal Canaã 419,1
CRA025003PD São Martinho 269,9
CRA02400ANK SLC Agrícola 190,4
CRA025009Q2 Jalles Machado 146,8
CRA02500A6V ACP Bioenergia 122,8
CRA020002H1 BRF 106,7
CRA0220073P Minerva 97,3
CRA024004H7 São Martinho 95,3
CRA022007EP Klabin 91,6
CRA023007VD Engelhart CTP 79,5
CRAs, por número de negócios    
Código Empresa Nº de negócios
CRA025003PD São Martinho 9.250
CRA024004H7 São Martinho 7.918
CRA019001E7 Klabin 1.987
CRA020002H1 BRF 1.822
CRA022007EP Klabin 1.662
CRA025005V5 Minerva 1.556
CRA023007VD Engelhart CTP 1.420
CRA022000XF Marfrig Global Foods 1.366
CRA0220073P Minerva 1.328
CRA025003PJ Seara Alimentos 1.322
     

Nos CRIs, patrocinador faz diferença

No universo dos CRIs, a diversidade é maior, tanto regional quanto de características dos ativos. Mas é notável para Codeceira que a presença empresas patrocinadoras conhecidas do mercado é diferencial na capacidade de captar no mercado de crédito privado e atingir um maior número de negociantes.

Lage destaca ainda um crescimento mais estrutural no volume de CRIs lastreados em securitização de créditos imobiliários, principalmente no setor de construção civil.firmou. Segundo ele, a liquidez está cada vez mais associada à qualidade do patrocinador, à robustez das garantias e à transparência da estrutura da operação.

Lage lembra um crescimento mais estrutural no volume de CRIs lastreados em securitização de créditos imobiliários, principalmente no setor de construção civil.

Certificados de Recebíveis Imobiliários (junho)

CRIs, por volume financeiro (R$ milhões)    
Código Empresa Volume (R$ mi)
26E4435499 BTG Pactual LogCP FII 371,6
25L2398303 Pacaembu Construtora 368,6
21F0097589 V2 Prime Properties FII 340,6
24C1526928 Shopping Metrô Itaquera Part. e Inv. 295,4
21E0407810 Morumbi Town I FII 294,7
24L1853110 Uberlândia Refrescos 260,4
25F6926680 Genesis Capital Premium Properties FII 258,0
24A2246360 Sendas 251,4
25J3017471 Lavvi Empreendimentos Imobiliários 250,0
21D0001232 MRV 228,1
CRIs, por número de negócios    
Código Empresa Nº de negócios
23C0247702 Localiza 2.028
24E2262948 Maison Visconde 1.929
25I0014209 Multiplan 1.494
23J1801379 Galápagos Capital 1.470
24A2721829 Dasa 1.433
24E2258710 Maison Visconde 1.254
24I1177541 Mateus Supermercados 1.254
25C0023404 JHS F Participações 1.173
21H1078699 Sendas 1.157
25B3110439 Opea Sec 1.139
     

Mercado primário ainda reage com defasagem

As emissões ficaram estáveis em relação a maio, após um forte recuo em abril. Para Codeceira, o represamento de ativos nos balanços e tesourarias de alguns bancos continua sendo um fator relevante, mas não é o único. Segundo ele, o baixo volume de emissões do segundo trimestre ainda reflete, em boa parte, a alta das taxas ocorrida entre fevereiro e meados de abril – uma das mais expressivas da história do índice da Anbima que acompanha as debêntures atreladas ao CDI (IDA-DI).

“O mercado primário ainda está reagindo com defasagem, mesmo com o secundário já em recuperação”, disse.

O gestor ressaltou que operações de maior qualidade continuam conseguindo acessar o mercado, com emissões recentes de companhias ligadas a energia, saneamento, logística e agronegócio. “O mercado não está fechado, mas claramente mais criterioso”, diz.

Para novas emissões ocorrerem e terem sucesso, diz Lage, “é preciso que os astros se alinhem entre emissores, alocadores e coordenadores”.

No momento, segundo ela, parece faltar apetite dos emissores para captar recursos nos patamares atuais de taxas após um passado recente com taxas ainda mais baixas, especialmente nas debêntures incentivadas.

Fonte: Valor Investe

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