Mercado segue atraindo novos gestores, mas retração das emissões e busca por crédito de maior qualidade elevam a seleção natural no setor

O boom do crédito privado ajudou a reverter uma tendência de fechamento de gestoras independentes que marcou o mercado brasileiro de gestão de recursos na última década. Desde 2019, o número de casas ativas cresceu 83%, passando de 830 para 1.520, segundo levantamento da Oliveira Trust com base em dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
No mesmo período, ainda de acordo com a plataforma de serviços fiduciários para fundos de investimento e títulos de renda fixa, o mercado de crédito privado avançou 173%, impulsionado pela busca dos investidores por retornos mais elevados em um ambiente de juros altos.
O movimento, porém, ocorre em meio a um aparente paradoxo. Enquanto novas gestoras continuam surgindo, as emissões de crédito privado começam a perder força, os investidores estão mais seletivos e os custos regulatórios seguem elevados.
Para gestores e executivos do setor, o mercado não vive exatamente uma nova onda generalizada de expansão, mas uma retomada mais restrita, concentrada em casas especializadas e capazes de operar em nichos específicos.
O histórico mostra que ao longo dos últimos anos, mais de 3 mil gestoras foram registradas na CVM, mas cerca de metade já encerrou suas atividades. O período foi marcado por fechamentos, fusões e incorporações, principalmente entre casas menores que enfrentaram dificuldades para atingir escala ou atravessar mudanças de ciclo econômico.
“O mercado sempre acompanhou os movimentos dos juros. Quando os juros caem, o investidor busca mais risco. Quando sobem, os recursos migram para a renda fixa e para o crédito”, afirma Gabriel Sidi, fundador da EXT Capital.
Segundo Sidi, foi justamente essa mudança de comportamento que abriu espaço para o surgimento de novas gestoras nos últimos anos. “Foi determinante para que a EXT surgisse. Enxergamos uma migração estrutural dos investidores para produtos de crédito e criamos uma estratégia para atender essa demanda.”
Da renda variável ao crédito privado
A ascensão das gestoras de crédito ocorre paralelamente ao enfraquecimento de segmentos que haviam prosperado durante o ciclo de juros baixos.
Entre 2016 e 2021, a redução da taxa básica de juros, a Selic, de 14,25% ao ano para 9,25% e que, em 2020, chegou a ficar em 2%, favoreceu fundos de ações, venture capital e private equity. Mas, com a retomada dos juros a partir de 2022, o fluxo se inverteu.
Investidores passaram a priorizar renda fixa, debêntures incentivadas, Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e outros instrumentos de crédito privado.
No período, os juros saltaram de 9,25% para até 15% ao ano, ao final do ano passado, o maior patamar desde 2006. A mudança ajudou a impulsionar o nascimento de uma nova geração de gestoras.
Fundada em 2022, a EXT Capital nasceu para estruturar operações de crédito voltadas a empresas de tecnologia e crescimento acelerado. Já a Hike Capital, criada em 2024, apostou em fundos de crédito privado e estruturas ligadas ao mercado de recebíveis.
“O crescimento do crédito privado foi uma das principais razões para o surgimento de novas gestoras. Foi um mercado que atraiu muito capital nos últimos anos”, afirma Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital.
Segundo Belitardo, dois segmentos tiveram papel central nesse processo: as debêntures incentivadas ligadas à infraestrutura e os FIDCs. “O investidor encontrou alternativas com retornos elevados e as empresas encontraram novas formas de financiamento fora do sistema bancário”, disse.
Ao final do ano passado, um relatório do BTG Pactual revelou que o crédito privado deixou de atuar como um complemento ao sistema bancário tradicional para operar no centro do financiamento das empresas. Até novembro de 2025, o estoque total de crédito privado corporativo atingiu R$ 1,9 trilhão, volume mais de cinco vezes superior ao registrado em 2015.
Um mês antes, o estoque de debêntures incentivadas, criadas pela Lei 12.431 de 2011 para financiar infraestrutura, alcançou R$ 523 bilhões, superando o saldo de crédito direcionado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) às empresas, de R$ 462 bilhões.
Mercado está cada vez mais especializado
A nova leva de gestoras também apresenta uma característica diferente daquela observada em ciclos anteriores. Se antes muitas casas surgiam com estratégias amplas, hoje o mercado é cada vez mais especializado.
“As gestoras não nascem mais generalistas. Elas surgem para resolver um problema específico ou explorar uma oportunidade específica”, afirma Sidi.
No caso da EXT, o foco está na conexão entre startups e mercado de capitais. Já outras casas têm surgido voltadas exclusivamente para infraestrutura, FIDCs, crédito estruturado ou segmentos específicos da renda fixa.
A especialização é vista pelos gestores como uma resposta ao aumento da concorrência e à necessidade de oferecer diferenciação em um mercado dominado por grandes instituições financeiras.
Mas os gestores também ponderam que, se de um lado o crédito privado abriu oportunidades, de outro, a regulação tornou a sobrevivência mais difícil. A vigência da Resolução 175 da CVM, que começou a valer em outubro de 2023, ampliou as responsabilidades dos gestores de fundos e elevou as exigências de controle de risco, liquidez e enquadramento regulatório.
A medida foi criada pelo regulador com o objetivo de deixar o mercado local alinhado às práticas internacionais e com maior segurança jurídica. Mas, segundo José Alexandre Freitas, presidente da Oliveira Trust, a medida também elevou os custos.
Freitas aponta que uma gestora pode gastar mais de R$ 300 mil por ano apenas para manter a infraestrutura tecnológica e regulatória necessária para operar.
“Muitas gestoras fecharam ou se consolidaram porque o custo de manutenção ficou mais alto após as mudanças regulatórias.”
Para reduzir essa barreira, a Oliveira Trust desenvolveu uma plataforma que centraliza parte das exigências operacionais e regulatórias. Segundo a empresa, a ferramenta reduz em cerca de 20% os custos de entrada de novas gestoras.
“Quando você reduz esse custo inicial, aumenta a viabilidade de tirar o projeto do papel. Em muitos casos, isso influencia diretamente a decisão de abrir a gestora”, afirma Freitas.
O crédito privado perde fôlego
Outro desafio é agora entender se o motor que impulsionou esse crescimento continuará funcionando.
Dados recentes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram desaceleração das emissões e dos volumes de crédito privado.
A oferta de debêntures no mercado secundário recuou no primeiro trimestre de 2026 frente ao último trimestre de 2025, de R$ 296 bilhões para R$ 236,1 bilhões, de acordo com a entidade. No mercado primário, também houve queda de R$ 175,04 bilhões para R$ 99,32 bilhões no mesmo período, recuo de aproximadamente 43%.
Somado a isso, houve uma abertura dos spreads das debêntures indexadas à taxa DI, refletindo sinais de estresse no mercado, indo de 1,31% em 13 de março de 2026 para 1,66% em 20 de abril deste ano. O spread é o percentual acima do retorno de títulos públicos que as empresas oferecem. Quando ele sobe, é sinal de que a demanda diminuiu, pois o investidor está enxergando mais risco.
Na avaliação dos gestores, contudo, o movimento não representa necessariamente uma deterioração do mercado, mas um processo de amadurecimento. Sidi avalia que grande parte das empresas aproveitou os últimos anos para alongar dívidas e reduzir custos de financiamento.
“As companhias já refinanciaram boa parte dos passivos. Com menos vencimentos próximos, a necessidade de novas emissões naturalmente diminui.”
Belitardo acrescenta que episódios como Americanas, Light e outros problemas envolvendo emissores privados também aumentaram a cautela dos investidores.
“O mercado está muito mais preocupado com qualidade do que com retorno. Hoje existe menos disposição para assumir risco.”
Segundo o gestor da Hike Capital, as gestoras passaram a priorizar ativos de maior qualidade de crédito, especialmente em setores como infraestrutura, energia e transporte.
Além disso, a desaceleração das emissões não significa necessariamente o fim da expansão das gestoras independentes. Para os executivos do setor, o que está em curso é uma mudança de perfil.
Se o ciclo anterior premiou praticamente qualquer estratégia ligada ao crédito privado, a próxima etapa deve favorecer apenas as casas capazes de entregar retorno consistente, governança robusta e especialização.
“A seletividade vai falar mais alto”, afirma Belitardo. “Quem conseguir manter qualidade e gerar resultados de forma consistente terá espaço.”
Sidi concorda.
“O que define quem permanece é a capacidade de continuar gerando retorno em qualquer ambiente de mercado.”
Fonte: Exame
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