Debêntures, CRIs e CRAs: veja o que foi mais negociado no crédito privado

  No mercado de crédito privado, abril foi mês de separar o joio do trigo e buscar pela qualidade. Com o mercado estressado desde fevereiro, as taxas subiram e muitos investidores pularam do barco dos fundos de renda fixa. Nesse contexto, os papéis com boa avaliação de crédito, que oferecem maior segurança e liquidez ao…

 

No mercado de crédito privado, abril foi mês de separar o joio do trigo e buscar pela qualidade. Com o mercado estressado desde fevereiro, as taxas subiram e muitos investidores pularam do barco dos fundos de renda fixa. Nesse contexto, os papéis com boa avaliação de crédito, que oferecem maior segurança e liquidez ao investidor, destacaram-se entre os ativos mais negociados no período.

Sejam as companhias de grande porte, como Vale, Petrobras, Eletrobras e Sabesp, sejam aquelas menores, mas com nível de endividamento baixo, apareceram na liderança do levantamento da empresa de inteligência e análise de investimentos Quantum Finance obtido com exclusividade pelo Valor Investe.

Temos percebido uma busca dos investidores por papéis de melhor qualidade. O mercado piorou bastante nesse ano e vemos que os mais negociados não foram os ativos problemáticos. Pelo contrário, foram os com baixíssima chance de dar problemas”, afirma Fernando Siqueira, estrategista-chefe da Eleven Financial.

Debêntures mais negociadas (por volume financeiro)

Posição Ativo Instituição R$ Milhões
BCPSA7 CLARO 1.838,20
LMTPA0 LM TRANSPORTES 1.396,40
COMT11 MOTIVA PANTANAL 919,96
TBSP12 TIM 916,25
SBSPD7 SABESP 860,32
ELET24 ELETROBRAS 807,63
ECOV17 ECORODOVIAS 774,98
CHSF13 CHESF 748,13
SUZBB1 SUZANO 746,20
10º BTGH18 BTG PACTUAL HOLDING 698,62

Debêntures mais negociadas em abril (por número de operações)

Posição Ativo Instituição
SUZBA0 SUZANO 4360
TRPLA7 ISA ENERGIA BRASIL 3950
KLBNA5 KLABIN 3872
VALEC1 VALE 3369
RIS414 AGUAS DO RIO 4 3159
CBAN12 ROTA DAS BANDEIRAS 2921
CEEBD2 COELBA 2798
RISP14 AGUAS DO RIO 1 2640
STBP45 SANTOS BRASIL PARTICIPACOES 2350
10º PETR27 PETROBRAS 2291

Um dos destaques do mês foi o setor de telecomunicações, em especial a Claro, cuja debênture foi o ativo mais negociado entre os consultados. O setor exige alto investimento em capital fixo, o que resulta em emissões de dívida maiores, mas o seu risco é considerado muito baixo, explica Siqueira.

Em meados do mês começou a temporada de divulgação dos resultados financeiros do 1º trimestre, o que recebeu escrutínio especial dos investidores atrás de sinais de eventuais novas recuperações extrajudiciais ou judiciais – como ocorreu com Raízen, Pão de Açucar e Ambipar. De acordo com o estrategista da Eleven, os balanços divulgados até agora não atrapalharam, mas também não ajudaram a dar alívio ao mercado. Os investidores seguem em alerta e qualquer surpresa pode punir títulos de dívida de um jeito que não aconteceria em um cenário “normal”.

Algumas empresas que constam na lista podem estar lá não pela qualidade, mas justamente porque o estresse levou ao pagamento de retornos extremamente elevados, aumentando a liquidez dos papéis, afirma Guilherme Almeida, superintendente de renda fixa da Suno Research. Ele vê esse comportamento, em especial entre os CRIs, pela característica do setor imobiliário de combinar endividamento elevado com sensibilidade aos juros altos.

CRIs mais negociados em abril (por volume financeiro)

Posição Ativo Instituição R$ Milhões
25I0014209 MULTIPLAN 309
22C0509668 BM VAREJO EMPREEND. 265
25J3017471 LAVVI EMPREEND. IMOB. 242
25L2997442 EVEN 241
13F0056986 TSC JARAGUA DO SUL GARDEN SHOPPING 168
25L0013801 NORTIS INCORPORADORA 156
20I0795196 R31 INVESTIMENTOS 147
25J4546988 CYRELA 147
24E1393588 MULTIPLAN EMPREEND. IMOB. 143
10º 25F2919599 PLANO FOSFATO EMPREEND. IMOB. 143

CRIs mais negociados em abril (por número de operações)

Posição Ativo Instituição Quant.
23L2043099 UNIDAS LOCADORA 2521
25L2661265 OPEA SEC 2055
24E1393588 MULTIPLAN 1877
25I0014209 MULTIPLAN 1832
24I1980390 MRV 1530
24D0007011 OPEA SEC 1443
21L0666609 MS FII 1290
24L2959379 IME 1149
21H1078699 SENDAS 1130
10º 23F2430066 GALAPAGOS CAPITAL 1109

“A Unidas, por exemplo, tem alta necessidade de capital de giro e emite papéis frequentemente apenas para rolar dívidas antigas. A Multiplan, ligada a shopping centers, também reflete a sensibilidade do varejo à piora no bem-estar econômico e à alta inflação em itens essenciais”, diz Almeida. Por isso, é preciso observar não só a liquidez, mas a qualidade dos ativos subjacentes, em especial a capacidade de geração de caixa da empresa, o nível de endividamento (alavancagem) e o setor da empresa emissora.

O analista da Suno destaca que o mercado de renda fixa é extremamente influenciado por “narrativas”. Os casos de dificuldades financeiras e pedidos de recuperação judicial alimentam a percepção de que o mercado de crédito está se deteriorando. No entanto, ao olhar os microdados, ele observa que o aumento da inadimplência está concentrado em micro, pequenas e médias empresas (especialmente no agronegócio), enquanto o nível de inadimplência das grandes empresas, que são as maiores emissoras, permanece quase estável.

Mais seletividade, menos negociação

O volume negociado e as emissões caíram em todas as classes, exceto entre os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI). Somadas, as emissões ficaram em torno de R$ 21 bilhões, ante R$ 45 bilhões em março e R$ 63 bilhões em abril de 2025. Foi o menor valor da série coletada pela empresa de inteligência de mercado Quantum Finance.

CRAs mais negociados em abril (por volume financeiro)

Posição Ativo Instituição R$ Milhões
CRA025008HM COCAL CANAA 232
CRA024004H7 SAO MARTINHO 219
CRA02500A6V ACP BIOENERGIA 159
CRA020002H1 BRF 141
CRA025007PT SLC AGRICOLA 135
CRA025003PD SAO MARTINHO 120
CRA025008SP AGROGAR 91
CRA025009Q2 JALLES MACHADO 82
CRA021000RX MINERVA 69
10º CRA022007EP KLABIN 62

CRAs mais negociados em abril (por número de operações)

Posição Ativo Instituição Quant.
CRA024004H7 SAO MARTINHO 7978
CRA025007PT SLC AGRICOLA 4956
CRA025006NA LAR COOP. AGROINDUSTRIAL 4013
CRA025008Y9 USINA BATATAIS 1998
CRA023007VD ENGELHART CTP 1349
CRA0240086K SEARA ALIMENTOS 1330
CRA022007EP KLABIN 1254
CRA025005V5 MINERVA 1185
CRA02300SUZ VAMOS 1153
10º CRA025003PJ SEARA ALIMENTOS 1078

Apesar da queda em emissões, o mercado segue aquecido na avaliação de Almeida. A redução se deu em boa medida porque houve um recorde em 2025 em razão da Medida Provisória 1303 (Ela propunha taxar investimentos como LCIs, LCAs e fundos imobiliários), editada pelo governo federal, mas que caducou por não ter aprovação do Congresso Nacional. O temor de tributação sobre papéis isentos intensificou a procura de investidores por debêntures incentivadas, CRIs e CRAs emitidos anteriormente à vigência da medida.

A queda foi mais acentuada em debêntures convencionais e debêntures incentivadas, e mantiveram-se dentro da faixa de valores observados no ano passado no caso dos Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). No caso dos Certificados de Recebíveis Agrícolas (CRAs), as emissões não chegaram a somar R$ 1 bilhão.

Os CRAs são considerados um dos ativos mais estressados no momento, impactados pela queda geral no preço das commodities (soja, milho, açúcar, celulose) e por problemas recentes de inadimplência em fundos especializados e carteiras de grandes bancos. Siqueira nota que ocorre um efeito de “contágio”, em que até empresas com bons resultados e sem grandes problemas, como a SLC Agrícola, acabam sofrendo junto com o setor.

Como investir em títulos de crédito privado?

Ao investir diretamente em papéis, o investidor deve se atentar para o risco de crédito que está tomando. Os títulos são marcados a mercado, o que significa que depois da emissão, o valor unitário e a taxa que eles remuneram ao investidor podem variar. Quanto mais longo é o vencimento, mais os preços variam. Em casos extremos, como em recuperações extrajudiciais ou judiciais, o investidor não tem garantia nem de quando, nem se vai de fato receber, e esses papéis perdem muito valor no mercado secundário por causa disso.

Além disso, a liquidez pode ser um problema. Se for necessário resgatar o dinheiro do título antes do vencimento, é possível que a venda ocorra com um desconto expressivo devido a essa marcação, ou ao simples fato de que há poucos compradores.

Por isso, a recomendação do estrategista-chefe da Eleven é diversificar a carteira de crédito privado em no mínimo cinco a dez ativos, e que ela seja uma parte pequena do total de investimentos – justamente aquela mais exposta ao risco. O motivo é simples e o caso da Braskem é emblemático. “Há dois anos o risco não parecia ser alto. Agora a empresa está com uma chance grande de recuperação judicial e o investidor pode perder tudo”, diz.

Para quem não quer ou não tem tempo para acompanhar o mercado e fazer uma seleção ativa de títulos, a recomendação é investir via fundos. Além de ter uma gestão profissional na seleção dos papéis, eles têm maior liquidez no caso de um pedido de resgate. Há uma taxa de administração, mas a possibilidade do fundo tomar um risco um pouco maior devido à gestão ativa pode mais que compensar esse custo, se a gestora for eficiente.

 

Fonte: Valor Investe

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