Inadimplência supera previsões e ameaça oferta de crédito

A inadimplência superou as expectativas das instituições financeiras em todos os segmentos do crédito no primeiro trimestre de 2026. Os dados constam da Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito (PTC), divulgada pelo Banco Central do Brasil. A pesquisa, coletada entre 13 e 29 de abril com 17 a 25 participantes por segmento, registra percepções sobre…

Inadimplência, Inadimplência supera previsões e ameaça oferta de crédito, Capital Aberto

A inadimplência superou as expectativas das instituições financeiras em todos os segmentos do crédito no primeiro trimestre de 2026. Os dados constam da Pesquisa Trimestral de Condições de Crédito (PTC), divulgada pelo Banco Central do Brasil.

A pesquisa, coletada entre 13 e 29 de abril com 17 a 25 participantes por segmento, registra percepções sobre os últimos três meses e expectativas para os próximos três. A deterioração superou o que o sistema financeiro havia projetado na rodada anterior.

Inadimplência lidera restrições de oferta

No segmento de grandes empresas, o fator “nível de inadimplência do mercado” chegou a -0,73 ponto no primeiro trimestre, em uma escala de -2 a +2. O resultado ficou abaixo dos -0,48 registrados no quarto trimestre de 2025 — deterioração expressiva em apenas um período.

Para o segundo trimestre, a expectativa se mantém em -0,73. A percepção de risco dos clientes e as condições específicas da indústria ou do setor atingiram -0,64, sendo os fatores mais restritivos avaliados pelos respondentes.

O indicador geral de oferta para grandes empresas recuou de -0,33 no quarto trimestre de 2025 para -0,318 no primeiro de 2026. A projeção para o segundo trimestre é de -0,50, sinalizando aperto progressivo que vem se acumulando desde meados de 2025.

No segmento de micro, pequenas e médias empresas (MPMEs), a inadimplência como fator de oferta atingiu -0,68, ante -0,64 no trimestre anterior, com expectativa de -0,72 para o segundo trimestre. O indicador geral de oferta para o grupo recuou de -0,21 para -0,36.

Os repasses do BNDES e do Finame foram o principal contraponto ao aperto registrado no primeiro trimestre. O fator atingiu +0,40 ponto, ante zero registrado no quarto trimestre de 2025.

A contribuição sinaliza que o crédito público funcionou como amortecedor das condições mais restritivas do mercado privado. Para o segundo trimestre, a projeção recua para +0,24 — indicando atenuação do alívio, mas com o vetor ainda positivo.

A concorrência entre bancos também contribuiu para mitigar restrições no segmento de grandes empresas, chegando a +0,14, com expectativa de +0,32 no segundo trimestre. A participação do BNDES registrou +0,14 para corporações, com projeção de +0,18.

Consumo e habitacional

No crédito ao consumo, o indicador geral de oferta caiu de -0,14 no quarto trimestre de 2025 para -0,29 no primeiro de 2026. O comprometimento de renda (-0,41) e a inadimplência de mercado (-0,47) foram os principais vetores de restrição, a maior queda proporcional entre todos os segmentos.

Para o segundo trimestre, ambos os fatores devem se manter restritivos, e a tolerância ao risco deve contrair para -0,41. A pressão de inadimplência sobre o sistema é confirmada por dados recentes: o Banco do Brasil registrou no primeiro trimestre de 2026 um índice acima de 90 dias de 5,05%, alta de 1,42 ponto percentual em doze meses.

No crédito habitacional, a inadimplência como fator restritivo de oferta chegou a -0,57 no primeiro trimestre. Para o segundo, a projeção aponta -0,86 — o patamar mais negativo da série recente para esse item no segmento.

O indicador geral de oferta habitacional registrou +0,29 no primeiro trimestre, sustentado pela captação de novos clientes (+0,43). No entanto, comprometimento de renda (-0,43) e tolerância ao risco (-0,43) pressionaram o segmento em sentido contrário, e a expectativa para o segundo trimestre reverte para -0,14.

A demanda por crédito manteve-se resiliente no primeiro trimestre, apesar das condições de oferta mais restritivas. Para grandes empresas, a necessidade de capital de giro atingiu +0,59, com expectativa de +0,82 no segundo trimestre.

Nas MPMEs, o mesmo fator recuou de +0,46 para +0,28 no período, com recuperação esperada para +0,52. O comportamento indica que as empresas menores continuam recorrendo ao crédito bancário para cobrir despesas operacionais, mesmo diante do custo elevado.

No crédito ao consumo, a confiança do consumidor recuou para -0,29 como fator de demanda no primeiro trimestre, sinal de cautela das famílias. No crédito habitacional, a alteração nas taxas de juros passou de -0,29 para zero, e para o segundo trimestre a projeção é +0,29, sugerindo que a trajetória de queda da Selic começa a influenciar as expectativas de demanda.

A PTC foi publicada em ambiente de política monetária ainda restritiva. O Banco Central reduziu a Selic de 15% para 14,5% ao ano em abril de 2026, primeiro corte após sequência de manutenções.

O boletim Focus de abril projeta encerramento do ano em 13% ao ano. A trajetória de afrouxamento pode aliviar parcialmente o custo do crédito no segundo semestre, mas os efeitos sobre a inadimplência dependem da velocidade do ciclo monetário.

O custo do crédito do Banco do Brasil no primeiro trimestre somou R$ 18,9 bilhões, alta de 85,8% na comparação anual, com provisões para perdas chegando a R$ 16,8 bilhões — expansão de 46,6% em doze meses. Os números refletem, em escala setorial, a dinâmica que a PTC capta pela percepção das próprias instituições: a inadimplência avança acima do que o sistema financeiro havia projetado, e o segundo trimestre de 2026 não deve trazer alívio.


Fonte: Capital Aberto

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