
Há mais de um ano o mercado vem discutindo o avanço das recuperações judiciais no Brasil, e ainda mais no agronegócio em específico.
O agro viveu um ciclo longo de expansão entre 2020 e 2022, sustentado por crédito abundante, juros historicamente baixos e preços elevados das commodities. Contexto que estimulou crescimento acelerado e aumento de alavancagem.
O problema é que, boa parte das decisões financeiras dos anos seguintes, foram desenhadas para um cenário que já vinha dando sinais de esgotamento desde 2023. O custo do crédito subiu, ficou mais seletivo e as margens começaram a apertar.
Em 2024, os pedidos de recuperação judicial se tornaram conhecidos no ramo e ganharam volume. Em 2025, o movimento deixou de ser pontual e passou a afetar também empresas produtivas e capitalizadas do agro.
Do ponto de vista de crédito, estamos falando de prazos desalinhados com o ciclo de caixa, concentração excessiva de credores, pouca proteção contra a volatilidade de preços e decisões tomadas com base em um cenário que já não existia mais.
Em muitos casos, a recuperação judicial deixou de ser um instrumento excepcional de reorganização e passou a ser utilizada fora do timing correto, como tentativa de ganhar tempo, e não de resolver a raiz do problema.
Agora, em 2026, quando olhamos para o momento atual do agronegócio, o cenário é ainda mais exigente. Os juros seguem elevados e o crédito permanece seletivo. Credores analisam com mais profundidade, exigem maior disciplina financeira e não precificam mais o agro apenas pelo histórico de crescimento, mas pela qualidade da estrutura de crédito e pela capacidade real de atravessar ciclos adversos.
A leitura estratégica que fica para o grande empresário do agronegócio é que crédito não pode mais ser tratado apenas como combustível para crescimento. Ele precisa ser uma ferramenta de sustentação do negócio ao longo do tempo.
Isso passa por ajustar prazos ao ciclo operacional, diversificar fontes de financiamento, reduzir dependência excessiva de curto prazo e tomar decisões considerando cenários menos favoráveis e não apenas o cenário-base.
Crescer é fundamental, mas crescer com estrutura é o que garante longevidade. Em um ambiente de crédito mais caro e seletivo, quem entende isso antes não apenas reduz riscos, como se posiciona melhor para aproveitar oportunidades quando o ciclo voltar a mudar.
Autora: Priscila De Freitas Vieira
Head of Credit Risk | Multiplike Gestora de Recursos
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