Juros altos: o remédio amargo que ninguém gosta de tomar

Ninguém gosta de juros altos. Nem o Banco Central, nem os credores, nem as empresas. Quando a Selic sobe, não é para agradar ninguém, é para cumprir um papel: conter a inflação e manter a economia sob equilíbrio. Mas esse remédio amargo tem efeitos colaterais severos. Ele freia a economia como um todo, o consumo…

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Ninguém gosta de juros altos. Nem o Banco Central, nem os credores, nem as empresas. Quando a Selic sobe, não é para agradar ninguém, é para cumprir um papel: conter a inflação e manter a economia sob equilíbrio. Mas esse remédio amargo tem efeitos colaterais severos. Ele freia a economia como um todo, o consumo cai, investimentos são adiados, margens apertam. É ruim para todo mundo.

Hoje, a taxa básica está em 15% ao ano, o maior patamar desde 2015. Esse aperto monetário começou em setembro de 2024 e não deve aliviar significativamente enquanto a inflação não baixar. Os números já mostram algum resultado: o IPCA acumulado em 12 meses está em 4,68%, enquanto o IPCA-15, prévia da inflação, marca 4,50%. Ainda assim, as projeções indicam que a inflação só deve se aproximar de 3,9% no terceiro trimestre de 2026, dentro da meta contínua de 1,5% a 4,5%. Até lá, teremos um cenário de juros elevados e crescimento moderado, o PIB de 2025 deve fechar em torno de 2,1%, com tendência de desaceleração nos próximos trimestres.

Esse aperto monetário é necessário diante de um fiscal frágil e pressões inflacionárias persistentes. Mas enquanto não ajustamos as contas públicas, a política monetária precisa fazer o trabalho pesado. Para as empresas, isso significa pressão. Investimentos são adiados, margens ficam apertadas e o custo do crédito dispara. Para nós, credores, é um momento de cautela, onde precisamos ser mais seletivos na concessão e ajustar taxas que, infelizmente, não agradam ninguém. Tudo isso faz parte da lógica da política monetária.

Mas como empresas devem enfrentar essa realidade dura? A resposta está na disciplina financeira. E aqui está o ponto: não adianta reclamar dos juros. Eles cumprem um papel. O que faz diferença é como cada empresa se prepara para atravessar esse ciclo. O maior erro que vejo é a postura reativa. Esperar até o último momento para buscar crédito, não diversificar relacionamento com instituições, e quando a situação aperta, tomar decisões precipitadas. Crédito buscado na emergência é mais caro. Decisões tomadas sob pressão raramente são as melhores.

Empresas que se planejam com antecedência, controlam seus números e não deixam para tomar decisões de última hora têm uma vantagem competitiva enorme. Planejamento faz a total diferença entre uma empresa sobreviver ou crescer em tempos de juros altos. Ter caixa robusto sempre. Liquidez e previsibilidade são palavras que deveriam estar na mesa de todo CFO.

Juros altos são temporários, mas crises financeiras podem ser permanentes. Quem tem visão, organização e não se desespera, encontra meios de ajustar gargalos e fortalece a competitividade para além do cenário econômico. Diante disso, reforço que o planejamento é mais do que uma ferramenta de crescimento, é resiliência de negócio, é vantagem competitiva.

Autor: Volnei Eyng

Fundador e CEO da Multiplike, uma gestora de recursos com 25 anos de história e mais de 30 bilhões de crédito cedido.

Sócio benemérito da ABRAFESC;

Graduado em Administração e Economia;

MBA na HSM Management em Gestão de Negócios;

MBA em Macroeconomia.

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