FIDCs avançam e desafiam domínio dos bancos – SpaceMoney

  Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) estão ocupando espaço que antes era exclusivo dos bancos no Brasil. O movimento representa uma desintermediação do crédito nacional, com impacto direto para gestoras, fintechs, montadoras e investidores. O tema foi abordado por João Peixoto Neto, fundador e presidente da Ouro Preto Investimentos, gestora com quase…

 

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) estão ocupando espaço que antes era exclusivo dos bancos no Brasil. O movimento representa uma desintermediação do crédito nacional, com impacto direto para gestoras, fintechs, montadoras e investidores. O tema foi abordado por João Peixoto Neto, fundador e presidente da Ouro Preto Investimentos, gestora com quase R$ 17 bilhões sob gestão.

A lógica por trás dos FIDCs

Historicamente, apenas bancos podiam captar recursos e emprestar dinheiro. Com o tempo, o mercado de capitais absorveu parte dessas funções por meio de debêntures e notas comerciais. Os FIDCs são o estágio seguinte: transformam carteiras de crédito em fundos acessíveis ao público.

‘O grande mercado no mundo é o mercado de dívida’, afirmou Peixoto Neto. ‘Dívida pública e dívida privada. Só que essa dívida privada está saindo de dentro dos bancos e vindo para o mercado de capitais.’

Um FIDC opera como uma carteira de crédito empacotada em fundo revolvente. O dinheiro pago pelos devedores é reinvestido em novos créditos. A estrutura tem duas camadas: a cota sênior, com rentabilidade-alvo semelhante à renda fixa, e a cota subordinada, que absorve perdas primeiro, mas captura o lucro excedente.

Quem usa os FIDCs e por quê

Fintechs que financiam nichos específicos — como antecipação de comissão de corretores de imóveis ou crédito estudantil — são clientes frequentes. Grandes montadoras também entraram no mercado. ‘Por que as montadoras no Brasil têm bancos? Porque não tinha outra forma. Hoje, ao invés de montar um banco, elas montam um FIDC’, explicou o executivo.

Esse processo de tirar crédito dos balanços bancários já ocorreu nos Estados Unidos, onde gestoras independentes superaram os próprios bancos em volume. A BlackRock (BLK) administra US$ 11 trilhões, contra US$ 3,5 trilhões do JPMorgan (JPM). A Vanguard supera o Bank of America em quatro vezes.

Riscos e armadilhas do setor

Peixoto Neto foi direto sobre os riscos. ‘O mercado de FIDCs explodiu e vai aparecer muita coisa que vai dar errado. Você vai ter operações bem estruturadas, vai ter gente dando golpe, vai ter picareta no negócio.’

A principal armadilha é a concentração de risco. O FIDC ideal teria uma carteira pulverizada, com muitos devedores pequenos. Mas a estrutura permite fundos concentrados em um único devedor — e aí o risco sobe significativamente. ‘Cada FIDC é diferente do outro. É como se você estivesse comprando uma debênture de uma empresa: o risco de uma é diferente do risco de outra’, comparou.

O que o gestor evita e o que busca

Peixoto Neto defende teses escaláveis, com taxas atraentes e prazos curtos. O consignado privado é apontado como caso promissor: em pouco mais de um ano, atingiu R$ 100 bilhões e, na avaliação do gestor, pode chegar a R$ 600 bilhões. ‘É um crédito altamente escalável’, disse.

Já o financiamento de veículos é visto com ceticismo. Para ele, o carro não é uma garantia confiável no Brasil. ‘Quando você vai recuperar o veículo, o cara já depenou o veículo.’ O gestor cita problemas enfrentados pelo banco Digimais e, anteriormente, pelo Banco Votorantim — ambos com raízes em carteiras de crédito veicular problemáticas.

Revolução estrutural no mercado de crédito

Para ilustrar a dimensão da mudança, o fundador da Ouro Preto usou uma analogia com a mídia. ‘Você vê a revolução que teve no mercado de imprensa. Hoje você tem milhões de pessoas no YouTube produzindo conteúdo. Eu acho que a gente pode estar vivendo uma revolução parecida no mercado de crédito.’

Peixoto Neto acredita que gestoras independentes brasileiras podem repetir, com o tempo, a trajetória americana de superar bancos em volume administrado. O caminho será mais lento, dado o ambiente regulatório mais complexo e porque os próprios bancos já reagem comprando gestoras. Para o executivo, a descentralização do crédito no Brasil é uma tendência irreversível. Quem quiser entender melhor o universo de investimentos em renda variável e crédito privado encontra análises detalhadas para orientar suas decisões.

 

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