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GUAXUPÉ (MG) – A Cooxupé assumiu uma missão hercúlea: disseminar o seguro rural entre seus cooperados.
Desde 2023, a maior cooperativa de café do Brasil intermediou a contratação de quase 500 apólices de seguro.
Foram 261 seguros de cafezal, com cerca de R$ 90 milhões protegidos nas quatro zonas de atuação: sul de Minas, cerrado mineiro, matas de Minas e vale do Rio Pardo. Houve também 199 apólices ligadas a máquinas e equipamentos, com valor segurado de R$ 56 milhões.
Por ora, os números são microscópicos no universo de 21 mil produtores — 97% dos quais são pequenos. Mas Jorge Florêncio Ribeiro Neto, gerente de Marketing e Comunicação da Cooxupé, diz que é um começo.
“É uma prática que trabalhamos para que se torne corriqueira, porque já vimos muitos prejuízos, situações que acabam com uma família inteira. Ainda é um número pequeno de produtores, mas está crescendo”, ele diz.
A iniciativa precisa superar um histórico de baixa cobertura no agro brasileiro, com o setor muito dependente de subvenções do governo. No último Plano Safra, foi previsto R$ 1,06 bilhão para o seguro rural, mas R$ 445 milhões acabaram bloqueados para cumprir a meta fiscal. E o setor privado está mais criterioso — e até vacilante — nas concessões em meio à recente deterioração do cenário de crédito.

Com isso, a maioria dos produtores fica sujeita a níveis de risco altos na comparação com outros setores, como a indústria. E a situação se agrava com as mudanças climáticas.
Para mudar esse quadro, a Cooxupé criou uma corretora para organizar os negócios e a consultoria técnica. Até aqui, trabalha de forma agnóstica, vendendo apólices de diversas seguradoras — como Mapfre, Tokio Marine e Bradesco Seguros. A ideia é estimular a competitividade, “atraindo as melhores condições para os cooperados”.
A cooperativa diz não ter uma meta; a ideia é ampliar a cobertura o máximo possível, reconhecendo as dificuldades de funding e conscientização.
No futuro, Florêncio diz que a cooperativa pode dar um passo além: “A ideia é ter ela própria uma seguradora um dia”.
Dois riscos, duas coberturas
Os principais eventos segurados nas apólices intermediadas pela Cooxupé são meteorológicos: geadas e chuvas de granizo. Para mitigar esses danos, a cooperativa tem negociado duas coberturas.
Uma, mais completa, cobre esses eventos e proteções adicionais, como produção futura e tratamentos fitossanitários (quando a seguradora cobre em parte ou no todo os gastos com a aplicação de fungicida na lavoura após o granizo).
A outra, mais restrita, protege o café depositado na Cooxupé, valendo a partir do momento em que o caminhão da entidade deixa a fazenda.
Segundo Florêncio, a cooperativa tem intermediado também vendas de apólices para caminhões e máquinas, além de veículos de uso pessoal.
A maior dificuldade, ele diz, é endereçar o dilema que afugentou grandes empresas do setor após recentes quebras de safra: sem escala, os produtos ficam caros — e, com preços altos, é difícil ganhar escala.
Seguro rural ainda é luxo
O total do seguro rural é baixo frente ao saldo geral do País: apenas cerca de 9% do universo de R$ 145,7 bilhões em receitas nos seguros de dano em 2025.
Nos cooperados da Cooxupé, o valor até aqui segurado, de R$ 146 milhões desde 2023, é uma fração ínfima, por exemplo, dos R$ 12,9 bilhões comercializados em seguro rural em 2025, segundo a Susep (Superintendência de Seguros Privados).
O saldo inclui seguros associados a CPRs — os emissores têm cada vez mais condicionado a liberação do recurso à contratação da apólice.
Em 2025, a maior rubrica, de R$ 4,4 bilhões, não foi exatamente “rural”, e sim seguros de vida para fazendeiros e familiares.
Na sequência, aparecem o penhor rural (R$ 3,3 bilhões), o seguro de lavoura (R$ 3,3 bilhões) e o seguro de benfeitorias e produtos agropecuários (R$ 1,4 bilhão).
As maiores lavouras do País são as mais seguradas: a soja, com 10,2 milhões de hectares, 21% da área plantada. E o milho, com 4,4 milhões de hectares, ou 20% da área plantada em 2025 — os números somam safra de verão e safrinha.
O café aparece na sétima posição, atrás de trigo, arroz, cana e sorgo, com 228,5 mil hectares segurados. Isso significa 10% — ou seja, metade do patamar dos principais grãos — dos 2,25 milhões de hectares estimados para a cultura em 2025.
Sem spread
A Cooxupé tem uma receita com a corretagem, mas pequena; foi de R$ 1,3 milhão em 2025, 0,01% do faturamento de R$ 10,7 bilhões da cooperativa em 2024.
A baixa representatividade se deve ao “menor spread possível”, explica Florêncio.
“O ‘core’ da cooperativa é café, não crédito. Quando ela pega uma linha privada ou pública, se foi por 11, tenta entregar por 11, sem muito spread, ainda que a operação financeira interna seja grande.”
Do CRA ao FIDC
Para além do seguro, a Cooxupé está cada vez mais “no mercado”. No ano passado, emitiu um CRA de R$ 650 milhões, incluindo um lote adicional de R$ 125 milhões.
Foi a maior operação desde que a entidade começou a testar as águas da Faria Lima, em 2021, quando fez uma captação de R$ 150 milhões.
Agora, a cooperativa cogita mais um passo nessa direção com a criação de um FIDC.
Segundo Florêncio, até aqui, a ideia — incipiente, ele reforça — é constituir o patrimônio com contribuições dos próprios cooperados.
“Os CRAs foram um sucesso. Por isso, estamos mirando outro modelo de captação, uma espécie de FIDC para o cooperado. Ainda não tenho detalhes, como qual será o investimento, o prazo para resgate ou a remuneração, mas deve ser uma opção.”
Fonte: The Agri Biz
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