Crédito privado: FIDCs lideram crescimento no 1º tri, com debêntures em baixa

  O mercado de crédito privado – composto por instrumentos de dívida não bancária, como debêntures, CRIs, CRAs, certificados de recebíveis e FIDCs – registrou expansão de 22,5% em volume de emissões no 1º trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram R$ 192,8 bilhões de ofertas. Os dados são…

 

O mercado de crédito privado – composto por instrumentos de dívida não bancária, como debêntures, CRIs, CRAs, certificados de recebíveis e FIDCs – registrou expansão de 22,5% em volume de emissões no 1º trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram R$ 192,8 bilhões de ofertas. Os dados são do “Panorama do Crédito Privado no Brasil”, elaborado pela plataforma de crédito para o mercado de capitais Bloxs, e mostram o crescimento do setor ao lado da elevação dos prêmios (“spreads”) dos títulos.

O maior crescimento por classe de ativos foi dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), de 38%, no mesmo período.

O produto passa, segundo Felipe Souto, diretor-executivo da Bloxs, por uma “mudança estrutural” como efeito de avanços regulatórios recentes, que tornaram mais barata a montagem desse tipo de estrutura. Com isso, ele se consolidou como porta de entrada das empresas médias, com faturamento entre R$ 100 milhões e R$ 1 bilhão, ao mercado de capitais.

De acordo com Souto, o valor mínimo necessário para estruturação desses créditos diminuiu nos últimos anos e auxiliou a diminuir a dependência das empresas em relação aos bancos. Em especial após os eventos de crédito de 2023 envolvendo Americanas e Light, os bancos “fecharam a torneira” e passaram a exigir mais garantias para emitir dívidas, o que abriu espaço para o crédito privado.

As diferenças de custo de capital entre os bancos e o mercado de capitais não são pequenas, segundo o relatório. As taxas médias de crédito bancário oscilam entre 20% e 27% ao ano, enquanto o mercado de capitais oferece taxas médias entre 16% e 18% ao ano para empresas de médio porte e até menos para emissoras com avaliação de crédito.

Debêntures desaceleram, apesar da hegemonia

As debêntures, apesar de maioria absoluta em volume de emissões – elas representam 62% das ofertas no período -, registraram volume de negociação 14% menor em relação ao primeiro trimestre do ano anterior. A classe continua concentrada em grandes empresas com faturamento acima de R$ 1 bilhão, representantes de 80% do estoque desse tipo de ativo.

O relatório assinala que o mercado brasileiro de crédito “high yield” (emissores com rating inferior a BBB) permanece subdesenvolvido, limitando o acesso direto de empresas menores ao instrumento.

Os títulos isentos, sobre os quais não incide imposto de renda, foram em direção opostas no mês. Os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) registraram crescimento de 11% na mesma comparação e representaram 6% do volume de emissões no período. Já os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) tiveram emissões 72% menores no período e representaram 2% do volume total.

O mercado passou por um período de compressão dos prêmios (“spreads”) pagos aos acionistas em relação a taxa básica de juros nos últimos dois anos. Em 2023, debêntures AAA foram emitidas a uma média de CDI + 1,4% a 1,8%. Em 2024, chegaram a CDI + 0,6% a 0,9%. Para os analistas da Bloxs, o excesso de demanda dos fundos de crédito privado sobre a oferta de papéis criou verdadeira “fome” por ativos, empurrando prêmios para baixo.

Desde o segundo semestre de 2025, as emissões começaram a se normalizar. Os dados mostram remuneração de CDI + 1,2 a 1,7% para emissões AAA no 1º trimestre de 2026.

Para Edgard Erasmi, diretor-executivo da Polígono Capital, eventos de inadimplência e aumento do risco de crédito tornaram o mercado mais seletivo no segundo semestre do ano passado. Com isso, foram priorizadas as emissões com avaliação de crédito AAA, as que têm menor prêmio. “A gente viu um excesso nas emissões desse tipo, com empresas testando prazos muito longos, de 10 anos ou mais, e ‘spreads’ muito apertados”, diz. Na sua avaliação, a correção recente é saudável para o mercado.

Concessionárias e geradoras de energia elétrica representam a maior demanda

Os dados mostram que a maior procura por esse tipo de crédito está entre concessionárias e geradoras de energia elétrica, responsável por cerca de 28% da demanda, em especial de debêntures incentivadas. Em segundo lugar são as concessionárias de saneamento criadas após o marco legal do setor, com 18%. Em terceiro, o agronegócio, com 15% das emissões, concentradas em CRAs e Fiagros.

O setor de fintechs e tecnologia em geral, em quinto lugar, é responsável por 9% das emissões e concentra o uso de FIDCs para antecipação de recebíveis e crédito consignado.

A taxa de inadimplência no crédito livre permaneceu estável entre 3,0% e 3,5%, sem eventos sistêmicos, embora pedidos de recuperação judicial tenham atingido recorde entre pequenas e médias empresas pressionadas pelos juros elevados.

Os analistas esperam que o ciclo de cortes da Selic trará mais dinamismo e liquidez para o mercado de capitais. A redução de juros deve comprimir os prêmios e aumentar o apetite por risco, impulsionando volumes de emissão e beneficiando emissores de menor porte que hoje pagam taxas mais altas.

Entre os riscos existentes, são citados o possível fim da isenção fiscal de CRIs, CRAs, LCIs, LCA e debêntures incentivadas. A medida provisória em tramitação pode reconfigurar fluxos massivamente, dizem os analistas.

Fonte: Valor Investe

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