Mesmo em um mês marcado por resgates na indústria de fundos, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) caminharam na direção oposta. Dados da Anbima mostram que os fundos de investimento registraram saída líquida de R$ 18,1 bilhões em abril, enquanto os FIDCs tiveram a maior captação líquida mensal da indústria, com entrada de R$ 4,5 bilhões.
O desempenho chama atenção porque ocorreu em um ambiente de maior seletividade. Ainda segundo a Anbima, a classe de renda fixa registrou resgate líquido de R$ 19,3 bilhões em abril. Para Vicente Guimarães, diretor de RI da IOX, a captação positiva dos FIDCs mostra que o investidor não abandonou o crédito, mas passou a buscar estruturas mais organizadas para acessá-lo.
“Os dados de abril mostram uma mudança importante de comportamento. O investidor continua olhando para crédito, mas está mais seletivo. Em vez de buscar apenas retorno, ele quer entender o lastro, a qualidade da carteira, os mecanismos de proteção e a governança da estrutura. É justamente nesse ponto que os FIDCs ganham relevância”, afirma Guimarães.
Os FIDCs são fundos que destinam mais de 50% do patrimônio líquido à aquisição de direitos creditórios, como recebíveis empresariais, parcelas de financiamentos, duplicatas, recebíveis de cartão, contratos e outros fluxos futuros de pagamento. Na prática, eles funcionam como uma ponte entre empresas e originadores que precisam antecipar recursos e investidores interessados em acessar carteiras de crédito com regras específicas de seleção, monitoramento e remuneração.
Segundo Guimarães, esse modelo tem se mostrado atrativo porque permite maior visibilidade sobre o risco. “O diferencial do FIDC é que o risco pode ser analisado de forma muito granular. O investidor consegue olhar para os recebíveis que compõem a carteira, os critérios de elegibilidade, a concentração por sacado ou cedente, o histórico de inadimplência, os prazos e as garantias. Isso não elimina o risco, mas permite precificá-lo e acompanhá-lo com mais disciplina”, explica.
Um dos mecanismos mais importantes de controle está na estrutura de cotas. As cotas de um FIDC podem ser classificadas como seniores, que não se subordinam às demais para fins de amortização e resgate, e subordinadas, que ficam abaixo das demais nessa ordem de pagamento. Essa composição permite criar diferentes níveis de risco e retorno dentro de uma mesma estrutura.
“Em muitos FIDCs, a cota subordinada funciona como uma primeira camada de absorção de perdas. Isso cria um colchão de proteção para as cotas seniores e ajuda a alinhar os interesses entre originador, gestor e investidor. Quanto mais bem desenhada é a estrutura, mais transparente fica a distribuição de risco”, afirma o diretor de RI.
No caso da IOX, por exemplo, o portfólio do FIC FIDC IOX 90 é formado por recebíveis corporativos pulverizados entre grandes empresas da indústria e do comércio em todo o Brasil. A política é que nenhum cedente ou sacado pode representar mais de 5% da carteira. E os 10 maiores juntos não podem ultrapassar 30%. Essa regra é um importante mecanismo de diversificação para mitigar os riscos de concentração excessiva. Além disso, a própria butique investe junto e mantém, no mínimo, 18% do fundo na cota subordinada. “Antes de qualquer investidor sentir impacto, nós absorvemos, até um limite, eventuais perdas”, explica Guimarães. Também por isso, o fundo acumula 100% dos seus 33 meses de história com resultados positivos.
Além da subordinação, os FIDCs podem contar com regras de elegibilidade dos créditos, limites de concentração, gatilhos de performance, mecanismos de recompra, acompanhamento de inadimplência, auditoria documental e prestação periódica de informações. Para Guimarães, esse conjunto de ferramentas ajuda a explicar por que a classe se destacou mesmo em um mês negativo para a indústria.
“Quando há volatilidade ou cautela no mercado, estruturas com governança tendem a ganhar espaço. O FIDC oferece uma arquitetura que permite acompanhar a carteira de perto, definir limites e agir diante da deterioração dos indicadores. Essa capacidade de monitoramento é um dos seus principais diferenciais”, avalia.
O movimento também ocorre após um primeiro trimestre forte para a indústria. A Anbima informou que os fundos tiveram captação líquida de R$ 159,2 bilhões no primeiro trimestre de 2026, o maior resultado para o período nos últimos cinco anos, puxado principalmente pela renda fixa, que acumulou R$ 130,3 bilhões em entradas líquidas entre janeiro e março. O resultado de abril, porém, indica uma rotação mais seletiva dentro do próprio universo de crédito.
Na avaliação da IOX, os FIDCs podem seguir ganhando espaço à medida que empresas, fintechs e originadores buscam fontes alternativas de financiamento, enquanto investidores procuram ativos com lastro em economia real.
“Os FIDCs estão no encontro de duas demandas. De um lado, empresas e originadores precisam de funding para crescer. Do outro, investidores querem acessar crédito com estrutura, dados e mecanismos de proteção. Quando essa relação é bem construída, o fundo vira uma ferramenta eficiente para financiar a economia real”, diz Guimarães.
Apesar do desempenho positivo, o executivo ressalta que a classe exige análise criteriosa. “FIDC não é sinônimo de risco zero. O investidor precisa avaliar quem origina o crédito, como a carteira é formada, quais são os critérios de cessão, como a inadimplência é acompanhada e qual é o nível de subordinação. A vantagem é que, em uma estrutura bem montada, essas informações estão disponíveis e podem ser monitoradas ao longo do tempo”, afirma.
Para Guimarães, a tendência é que os FIDCs mantenham protagonismo no mercado de capitais, especialmente em segmentos nos quais há carteira pulverizada, previsibilidade de fluxo e necessidade de financiamento recorrente. “A captação de abril reforça que o mercado valoriza estruturas capazes de organizar o risco. Em um cenário de saques na indústria, os FIDCs se destacaram porque entregam uma combinação que o investidor busca hoje: lastro, governança, diversificação e controle. Esse deve ser um dos caminhos mais relevantes para o crédito privado nos próximos anos”, conclui.
Fonte: Monitor Mercantil
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