
A infraestrutura brasileira segue atraindo capital mesmo em um cenário marcado por Selic elevada, incertezas fiscais e volatilidade na curva de juros. Entre janeiro e maio deste ano, as negociações de debêntures incentivadas no mercado secundário alcançaram R$ 179,4 bilhões, o maior volume da série histórica para o período, segundo boletim divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Apenas em maio, o volume negociado somou R$ 43,4 bilhões, alta de 40,3% em relação ao mesmo mês de 2025.
Para Leonardo Andreoli, especialista em investimentos da Hike Capital, o recorde das negociações reflete tanto o amadurecimento do mercado de capitais quanto o reposicionamento de investidores diante do cenário macroeconômico. “O mercado secundário de debêntures sempre foi um ponto fraco no Brasil, então, ver um volume recorde de R$ 179,4 bilhões em apenas cinco meses é um avanço importante”, afirma.
Segundo ele, embora parte do volume esteja relacionada a ajustes de carteira em meio à Selic elevada, à inflação pressionada e às incertezas fiscais, a leitura principal é positiva. O especialista avalia que o avanço das negociações indica um mercado mais saudável, com maior liquidez, melhor formação de preços e mais profundidade.
Infraestrutura concentra demanda por financiamento
Os números mostram que o crescimento do mercado está diretamente ligado à busca por financiamento de longo prazo para projetos de infraestrutura. Entre janeiro e maio, o setor de energia elétrica respondeu por 54% das captações realizadas por meio de debêntures incentivadas. Transporte e logística representaram 11,2%, enquanto saneamento respondeu por 10,7%.
O instrumento, na avaliação de Andreoli, tem se consolidado como alternativa relevante para segmentos que demandam grandes investimentos e prazos extensos de amortização. “Debêntures incentivadas fazem sentido para empresas que precisam financiar projetos de longo prazo, como energia elétrica, transporte, logística, saneamento e infraestrutura básica”, diz. “Esses projetos geralmente exigem prazos maiores do que o crédito bancário tradicional oferece em boas condições.”
O prazo médio das debêntures incentivadas emitidas no período alcançou 11,9 anos, mais que o dobro dos 5,4 anos observados nas debêntures corporativas sem benefício fiscal. Para o especialista, o dado evidencia que o mercado de capitais vem conseguindo oferecer condições mais compatíveis com as necessidades dos projetos de infraestrutura.
Avanço estrutural do mercado
Embora o aumento das negociações esteja associado ao crescimento do estoque de debêntures emitidas nos últimos anos, Andreoli avalia que o movimento vai além desse fator. Segundo ele, um mercado secundário mais líquido reduz a percepção de iliquidez, melhora a formação de preços e aumenta a confiança dos investidores para participar de novas emissões. O resultado é um ciclo que tende a fortalecer o financiamento privado da economia.
A análise converge com a leitura da própria Anbima. Em declaração divulgada junto ao boletim, Erika Lacreta, gerente executiva de Mercado de Capitais da entidade, afirmou que o desempenho do secundário sinaliza uma transformação estrutural do mercado brasileiro. “O aumento expressivo nas negociações no secundário é um sinal claro do avanço estrutural do mercado de capitais brasileiro”, afirma. “Um ambiente mais dinâmico amplia a liquidez dos ativos, melhora a formação de preços e fortalece o ciclo de financiamento de projetos de infraestrutura.”
Fundos e institucionais sustentam o mercado
Os fundos de investimento tiveram participação relevante nesse movimento. Dados da Anbima mostram que eles responderam por R$ 19,6 bilhões das subscrições de debêntures incentivadas entre janeiro e maio, o equivalente a 35,3% do volume destinado aos investidores no período. Para Andreoli, os gestores de crédito privado exercem papel central nesse processo, tanto pela capacidade de análise de risco quanto pela necessidade de montar carteiras diversificadas para investidores. Além deles, investidores institucionais, como seguradoras, entidades de previdência e gestoras, ajudam a ampliar a liquidez do mercado por meio da negociação de volumes maiores e da constante rotação de posições.
A participação da pessoa física também permanece relevante, impulsionada principalmente pelo benefício da isenção de Imposto de Renda. Em muitos casos, porém, esse investidor acessa o mercado de forma indireta, por meio de fundos de infraestrutura, fundos de crédito privado e carteiras administradas. “O crescimento não vem de um único público. Ele vem da combinação entre gestores profissionais, investidores institucionais e pessoa física buscando renda fixa isenta com retorno real atrativo”, afirma o especialista da Hike Capital.
Liquidez pode reduzir custo de captação
Na avaliação de Andreoli, o fortalecimento do mercado secundário tende a produzir efeitos positivos para empresas, investidores e para a economia como um todo.
Segundo ele, um ambiente mais líquido reduz o prêmio de iliquidez exigido pelos investidores, permitindo que novas emissões sejam realizadas com custo potencialmente menor ao longo do tempo. Além disso, a negociação mais intensa cria referências de preços e taxas para futuras captações. “Quando o investidor sabe que consegue vender o papel com mais facilidade, ele aceita um retorno menor na emissão primária”, diz. “Isso pode reduzir o custo de captação das empresas ao longo do tempo.”
O resultado, de acordo com o especialista, é o aumento da disponibilidade de recursos privados para setores com impacto direto sobre produtividade, qualidade dos serviços e crescimento econômico de longo prazo, especialmente energia, logística e saneamento.
Fonte: Capital Aberto
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