A expectativa de início do ciclo de cortes da Selic agora em março passou a ser tratada com maior cautela pelo mercado após a escalada das tensões no Oriente Médio. Parte dos analistas já revisa as projeções para a política monetária brasileira diante do aumento das incertezas externas.
A estimativa inicial indicava um corte de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros. No entanto, no cenário mais adverso, esse movimento pode ser reduzido para algo próximo de 0,2 ponto percentual. Há também quem considere a possibilidade de manutenção da taxa atual, embora essa hipótese ainda seja vista como menos provável pela maior parte dos especialistas.
O principal ponto de atenção está no impacto geopolítico sobre os preços da energia. A instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente, elevou a volatilidade no mercado internacional de commodities. Com o petróleo mais caro, há pressão sobre diversos preços da economia, o que pode afetar as expectativas de inflação.
Na avaliação de Peterson Rizzo, gerente de RI da Multiplike, o choque geopolítico eleva a incerteza e reforça a postura de cautela, sobretudo via petróleo e câmbio. Caso a tensão se prolongue e pressione preços de energia, combustíveis ou o dólar de forma persistente, o risco é de revisões altistas para a inflação e de um ritmo mais lento de queda dos juros.
Juros elevados mantêm pressão sobre setores intensivos em capital
O ambiente de juros ainda elevados e maior volatilidade externa tende a manter o crédito mais seletivo na economia. Entre os segmentos mais sensíveis ao custo do capital estão a construção civil e o agronegócio, atividades que dependem de financiamento contínuo para sustentar investimentos e capital de giro.
Na construção civil, o custo do crédito segue sendo um fator relevante para o ritmo de novos projetos. Embora o setor conte historicamente com programas habitacionais e linhas incentivadas do governo, especialistas avaliam que a dependência dessas fontes pode limitar a expansão das empresas, sobretudo em períodos de restrição fiscal ou mudanças nas regras dessas políticas.
No agronegócio, o cenário também exige cautela. O aumento da inadimplência em alguns segmentos da cadeia produtiva levou instituições financeiras a adotar critérios mais rigorosos na concessão de crédito, tornando o acesso a novos financiamentos mais seletivo para produtores e empresas do setor.
Diante desse cenário, instrumentos de financiamento estruturado vêm ganhando espaço como alternativa para viabilizar investimentos. Esse modelo permite estruturar operações de acordo com o fluxo financeiro de cada negócio, ampliando as possibilidades de financiamento e reduzindo a dependência de fontes tradicionais de crédito.
Fonte: Redação
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