O número recorde de empresas inadimplentes no Brasil faz gestoras e casas de crédito reforçarem suas estratégias de análise de risco para blindar o capital dos investidores.
Em maio, pelo segundo mês consecutivo, o número de empresas negativadas manteve o patamar recorde de 9 milhões de CNPJs, de acordo com o dado mais recente do Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian.
Porém, o volume de dívidas negativadas chegou a R$ 229,9 bilhões, um aumento de quase R$ 10 milhões em comparação com o mês anterior, refletindo o desafio das empresas para reduzir o passivo acumulado.
A inadimplência corporativa chegou a um ponto de atenção para o mercado de crédito no Brasil. Neste cenário, a análise de risco precisa ir além dos demonstrativos financeiros tradicionais, destacou Fernando Moreira, diretor de Gestão de Fundos da Intra Asset.
“O balanço mostra uma parte importante da história, mas também é preciso entender o setor em que a empresa está inserida, a pressão sobre o caixa e os sinais que aparecem antes do problema se tornar inadimplência”, disse Moreira.
Segundo ele, uma companhia pode parecer saudável nos demonstrativos e, ao mesmo tempo, carregar fragilidades que só aparecem quando se observa a operação de perto.
Moreira pondera que o default corporativo é um processo gradual, sinalizado pela deterioração de margens, alongamento de pagamentos e queda na receita. Outros fatores como dependência de poucos clientes, atrasos com fornecedores e necessidade recorrente de capital de giro também indicam desequilíbrios operacionais.
Acompanhamento contínuo
Levantamento interno da Intra Asset, nos últimos seis anos, com 1.500 grupos empresariais com faturamento anual superior a R$ 120 milhões, mostra que a taxa média de aprovação foi de 50%. Atualmente, a Intra mantém operações com cerca de 100 grupos empresariais.
Para as empresas que buscam crédito, esse novo ambiente muda a preparação antes mesmo da tomada de recursos, observou Moreira. “Companhias com informações consistentes, governança mínima, fluxo de caixa monitorado e estratégia definida para uso dos recursos tendem a atravessar melhor o processo de análise”, explicou Moreira.
O cenário atual de inadimplência recorde e Selic elevada expôs um limite estrutural da análise de risco tradicional, observou Alexandre Pegoraro, CEO da Kronoos, plataforma especializada em automação de diligência e análise de riscos.
O mercado está migrado de uma lógica de avaliação pontual para um sistema de acompanhamento contínuo. Isso inclui monitorar processos judiciais, protestos, restrições cadastrais e alterações societárias à medida que ocorrem, Pegoraro explicou.
“Essa é uma mudança que vemos diretamente na demanda dos nossos clientes, que estão substituindo a consulta pontual por um monitoramento recorrente”, afirmou Pegoraro.
Monitoramento recorrente
O movimento já aparece nos números da Kronoos. Segundo o CEO, no primeiro semestre de 2026, a empresa registrou um aumento de 48% na demanda por investigações e averiguações empresariais em relação ao mesmo período de 2025.
Isso ocorre justamente porque o custo de uma inadimplência não prevista é maior em um cenário de juros altos, e o tempo de reação de quem concede crédito precisa ser mais curto, explicou.
O tempo de aprovação praticamente não mudou, mas a Solis evoluiu no processo com automação e IA, segundo Macêdo. Segundo ele, houve um reforço na profundidade dos processos, com validação do lastro, registro, análise sobre histórico de liquidação e, em casos específicos, garantias adicionais como colateral complementar.
“Em alguns casos recalibramos os modelos de crédito, reduzimos limites de concentração por cedente e por sacado, e reforçamos o monitoramento contínuo da carteira”, contou Macêdo.
A Selic elevada aperta a margem de qualquer empresa, mas a antecipação de recebíveis sofre menos do que o crédito padrão, na avaliação de Macêdo. Como o risco é do sacado, empresas com boa carteira de clientes continuam operando mesmo quando eventualmente seu próprio rating piorou, observou.
O sócio-diretor da Solis ressalta que empresas reprovadas em linhas bancárias tradicionais têm buscado FIDCs e desconto de recebíveis justamente porque a análise é do lastro, não só do balanço.
“É parte do movimento maior de desintermediação bancária no financiamento das empresas brasileiras”, afirmou Macêdo.
Fonte: Capital Aberto
Tudo Sobre FIDCs
O seu portal de notícias e análises sobre o mercado de FIDCs. Reunimos, diariamente, as principais informações sobre Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, mercado de capitais e crédito.
Acompanhe as movimentações, tendências e estratégias que moldam o universo dos FIDCs.
Tudo Sobre FIDCs: conteúdo inteligente para quem acompanha o mercado de FIDCs
