
Senadores veem com cautela nomeação de Lobo, que enfrenta oposição do Ministério da Fazenda, após decisões polêmicas
O avanço das investigações sobre as fraudes no Banco Master e o envolvimento do Congresso no escândalo colocaram as sabatinas dos nomes indicados pelo governo Lula para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em banho-maria. Segundo apurou o Valor, a Casa Civil ainda não deu o aval para que o indicado à presidência da autarquia, o ex-diretor Otto Lobo, inicie o tradicional “beija-mão” com os senadores. Até mesmo senadores do governo admitem nos bastidores que não deve haver esforço, pelo menos neste momento, para a aprovação.
Em janeiro, Lobo e o advogado Igor Muniz foram indicados pelo governo para a presidência e para a diretoria da CVM, respectivamente. O nome de Lobo tem a oposição do Ministério da Fazenda, ao qual a CVM é diretamente subordinada.
Senadores ouvidos pelo Valor veem com cautela a indicação dele, uma vez que o ex-diretor acumula decisões polêmicas, especialmente durante o período que atuou como presidente interino da autarquia no ano passado. Em julho de 2025, Otto assumiu a chefia do órgão com a renúncia repentina do então presidente João Pedro Nascimento, ficando no posto até dezembro.
Investigações da área técnica da CVM apontam que em 2024 o Banco Master teria se beneficiado de uma escalada dos preços da Ambipar para reforçar o próprio patrimônio líquido, que saltou de R$ 2,3 bilhões para cerca de R$ 4,7 bilhões.
No período em que foi presidente interino, Lobo deu voto de desempate que decidiu que a Ambipar não precisaria realizar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA). Se realizada, a operação levaria a um desembolso bilionário da companhia, o que poderia gerar problemas de caixa – que meses mais tarde pediu recuperação judicial. Na época, a posição dele estava em discordância com a área técnica da CVM.
Nos bastidores, a primeira indicação de Lobo é ligada principalmente ao presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), a quem o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, chamou de “grande amigo” em mensagens do celular do empresário obtidas pela Polícia Federal (PF). Ciro, inclusive, foi o relator da indicação quando Lobo foi sabatinado pelo Senado para assumir a vaga de diretor da autarquia.
“As sabatinas dependem do presidente Davi [Alcolumbre, do União-AP], mas óbvio que depois desse episódio [do Master] o que já estava complicado fica mais complicado ainda”, afirmou ao Valor o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura a atuação do crime organizado no Brasil, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE).
Na mesma linha, o senador Izalci Lucas (PL-DF) diz que “a CVM precisa explicar como aconteceu isso [as fraudes no Master] durante tanto tempo”.
Óbvio que depois desse episódio [do Master] o que já estava complicado fica mais complicado ainda”
— Alessandro Vieira
A CVM se tornou no mês passado um dos alvos de apuração dos senadores por possível omissão na responsabilização de irregularidades envolvendo o Master. O grupo de senadores que acompanha as investigações deste tema na CAE, coordenado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), pediu ao ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Vinícius Marques de Carvalho, a realização de uma auditoria na autarquia para entender se houve falhas do órgão.
Até o momento, as mensagens com as indicações para a cúpula da CVM se encontram nas mãos de Alcolumbre, que precisa despachá-las para a sabatina e apreciação da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) da Casa. Questionado pelo Valor na última semana, Alcolumbre respondeu que ainda não “tem a data” para fazer isso e que esse é um tema de “decisão discricionária” dele próprio.
Senadores veem essa demora como um indicativo de descontentamento de Alcolumbre com os nomes indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Quando a indicação de Lobo foi divulgada, ela foi atribuída nos bastidores a Alcolumbre – o que interlocutores do presidente do Senado negam.
Ao mesmo tempo, conversas nos bastidores sobre uma possível substituição na indicação de Lobo têm gerado tensões para ele, segundo apurou o Valor. Isso porque ele gostaria de já ter iniciado as conversas com os senadores para ser aprovado, mas ainda não recebeu o aval da Casa Civil para isso. No entanto, nos bastidores, a avaliação também é que o momento não está propício para iniciar esse diálogo, tanto por causa da relação do governo com o Senado quanto por causa das turbulências causadas pelo caso Master.
Pessoas próximas a Lobo, por outro lado, afirmam que ele vê com naturalidade a demora e que está tranquilo, aguardando para fazer a articulação política a favor do seu nome. Procurado, ele não quis se manifestar.
Ao mesmo tempo, integrantes do governo indicam que não deve haver esforço para que esses nomes sejam chancelados pelo Senado – diferentemente do que tem feito com a indicação do advogado-geral da União, ministro Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Questionado pelo Valor sobre a indicação de Lobo, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), disse que não há previsão de retirada do nome. Mas disse também que o governo não tem uma diretriz de como lidará com a indicação. “Se aparece com um batom na cueca, aí é evidente que fica constrangedor para o governo. Agora, se não tem nada objetivamente [nas investigações]…”, afirma. “O Master virou a novela do ano.”
Procurados, Muniz, Casa Civil, Alcolumbre, Calheiros, Nogueira, CGU e CVM não retornaram até o fechamento desta edição. (Colaborou Guilherme Pimenta)
Fonte: Valor Econômico
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