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O episódio envolvendo o Banco Master — que levou um conglomerado de instituições que estavam sob o guarda-chuva da instituição para a liquidação extrajudicial e que atingiu mais de seis milhões de brasileiros — fez muitos investidores passarem a olhar com mais atenção para os fundos de investimento. A avaliação é de Hudson Bessa e Marcelo Guterman, organizadores e autores do recém-lançado livro “Fundos de Investimento: um guia prático para o mercado brasileiro”.
Segundo os autores, o caso não apenas chacoalhou o mercado financeiro, como também reforçou a importância da diversificação e expôs os riscos da concentração de portfólios e da própria gestão individual.
“O brasileiro ainda tem a ilusão de que consegue escolher ativos melhor que um gestor profissional. A ideia é: ‘vou fazer minha própria gestão, escolher os papéis e não pagar taxa de administração’. Só que os fundos oferecem algo que o investidor pessoa física não consegue replicar sozinho: diversificação. São estruturas que te permitem investir em centenas de papéis com um valor bem menor. É uma vantagem imbatível”, afirma Guterman.
Guterman cita que, inclusive, após o episódio, notou uma mudança no fluxo de capital que ilustra essa mudança de comportamento: assim que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ressarciu os detentores de CDBs do Master, parte desse dinheiro fluiu para a indústria de fundos.
“Nós vimos na questão do Banco Master isso de “eu vou escolher o papel que vai render muito mais”, e de fato rende, até dar algum problema. Em alguns casos o investidor está muito concentrado naquele tipo de papel. Na gestora onde trabalho, em janeiro os nossos fundos de crédito captaram muito. O que aconteceu? O FGC pagou os detentores de CDBs do Banco Master e esse dinheiro veio para os fundos, diz Guterman.
Vale destacar que, em janeiro, mês que o FGC começou a ressarcir os investidores do Master, os fundos de renda fixa tiveram captação líquida de R$ 57,4 bilhões, o melhor resultado em 18 meses, segundo dados da Anbima.
Para ele, o episódio serviu como uma lição sobre risco de concentração, o que normalmente não acontece nos fundos. Eles destacam que a estrutura de um fundo tende a diluir eventuais perdas. Em um fundo bem gerido, mesmo que um ativo quebre, o impacto é limitado, geralmente a no máximo 5% do patrimônio.
A situação é bem diferente para quem concentra o investimento em um único título, como um CDB. Isso fica ainda mais crítico quando o valor aplicado ultrapassa o limite de garantia do FGC, atualmente de R$ 250 mil por conglomerado financeiro, como aconteceu com alguns investidores do Master que viram parte do patrimônio investido ficar “descoberto”.
“No fundo, o investidor dilui a sua perda potencial. É uma diversificação que traz eficiência e uma estratégia maior de defesa”, detalha Bessa.
Apesar disso, Bessa observa que o comportamento do investidor brasileiro ainda é guiado por extremos, oscilando entre a ganância desenfreada e a aversão total ao risco após uma perda.
Ele cita que o livro tenta trazer esse pêndulo para o centro, educando o profissional e o investidor de varejo sobre a função estrutural do fundo: a defesa. “A gente fica imaginando um investidor racional, o cara que vai tomar decisão fazendo conta. Nós não somos assim”, diz Bessa.
“Em algum momento alguém teve um problema de perda, e isso estimula uma aversão à perda. É como se fosse um pêndulo e raramente estamos no centro. Ou estamos vendo todo mundo ganhar dinheiro e ficamos gananciosos ou estamos do outro lado do pêndulo porque teve uma história ruim, ficou com medo e aí resolveu ficar mais conservador. E esse é um pouco do objetivo deste livro, ajudar também a disseminar sobre o que é o fundo não só pro investidor, mas para o próprio profissional que precisa muitas vezes olhar para o fundo não apenas como um produto, mas como um compromisso com o investidor“, diz Bessa.
Crises criam “ondas” de migração para fundos
Apesar do movimento recente, Guterman pondera que essa migração costuma acontecer em ciclos sempre que há algum evento de estresse no mercado, como a liquidação de instituições financeiras. “Não é a primeira vez e nem será a última”, afirma.
Segundo ele, com o tempo o investidor tende a voltar a buscar retornos mais altos assumindo riscos maiores. “Passa um tempo e o ‘bichinho da ganância’ toma conta de novo. Mas o fundo sempre está lá como segurança e acaba sendo procurado novamente quando surgem crises.”
A proposta do livro, que reúne como autores também um grupo de profissionais com atuação em todos os processos da indústria de fundos, é dissecar a “caixa-preta” desse mercado. Segundo Bessa, a complexidade do mercado atual exige que o investidor olhe além da lâmina de rentabilidade. “Antigamente falávamos apenas de risco de mercado. Hoje é risco de liquidez, de crédito, entre outros”, explica.
Outro tema abordado no livro é a transparência na remuneração de quem vende produtos financeiros — assunto que ganhou destaque em 2025 após perdas em Certificados de Operações Estruturadas (COEs) de empresas como Braskem e Ambipar. Os organizadores ressaltam que o investidor precisa entender por que aquele fundo está sendo oferecido e os incentivos por trás daquela venda.
Segundo eles, entender isso não garante que o produto seja o melhor do mercado, mas ajuda a avaliar se a recomendação está alinhada aos interesses do próprio investidor.
Fundos são “resilientes”
Apesar dos episódios recentes, os autores defendem que a indústria brasileira de fundos é resiliente. Bessa lembra que, mesmo em períodos de estresse — como durante a pandemia ou crises bancárias — o número de fundos voltados ao varejo que efetivamente quebraram, travaram resgates ou tiveram perdas extremas foi baixo.
Além disso, ressaltam que um dos pontos mais importantes que o investidor precisa entender é que risco sempre existe — mesmo quando não se materializa, o que o livro também ajuda a entender na prática.
“O investidor costuma associar risco apenas à perda. Como se o risco só existisse quando a perda acontece. Mas não é assim. O risco está sempre presente e pode se materializar a qualquer momento”, diz.
O livro “Fundos de Investimento: um guia prático para o mercado brasileiro” terá lançamento oficial com noite de autógrafos no próximo dia 24, às 18h, na Livraria da Vila, na Fradique Coutinho.
Fonte: Valor Investe
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