O foco dos painéis foi discutir o atual boom vivido pelo crédito privado no Brasil, seus impactos, riscos e tendências de médio e longo prazo.
A expansão do crédito privado é notável. Segundo estudo de uma instituição financeira o estoque de crédito não bancário, incluindo debêntures, certificado de recebíveis imobiliários (CRI), certificado de recebíveis do agronegócio (CRA) e FIDCs atingiram um montante de R$ 2,7 trilhões, em 2025, contra R$ 2,6 trilhões de empréstimos concedidos pelos bancos. Segundo o estudo, há dez anos o mercado de capitais representava a metade do volume de crédito bancário ofertado às pessoas jurídicas.
Como em qualquer indústria ou segmento de mercado que experimenta um crescimento tão expressivo, as dores e riscos não são pequenos. Produtos isentos de imposto de renda, como CRI, CRA e fundos de infraestrutura para pessoas físicas e FIDCs, tem apresentado boas rentabilidades líquidas e atraído a atenção de distribuidores, corretoras e bancos, que têm sido agressivos em suas ofertas.
Gestores e securitizadoras, cujo trabalho é estruturar tais produtos, ao ver a avalanche de recursos batendo à porta, precisam alocá-los em ativos cuja rentabilidade seja compatível às expectativas que foram vendidas aos investidores e, sendo assim, partem em busca do prêmio de risco de crédito que poderá gerar o retorno excedente procurado. Um caixa gordo, com muito dinheiro “parado”, rendendo CDI, não é capaz de remunerar adequadamente, em comparação às expectativas geradas no momento das aplicações pelos investidores. Daí a busca pelo crédito privado.
Um tema que surgiu durante os painéis foi o do tamanho alargado que a expressão “crédito privado” assumiu. Não há dúvida que qualquer crédito de emissão de um ente privado, seja banco ou empresa jurídica não financeira, é por definição privado, ou não público, mas a pergunta é se esse “chapéu” não estaria muito pequeno para comportar a gama de créditos que podem existir debaixo dele.
Iniciando por uma discussão conceitual que costumo fazer com meus alunos de mercado financeiro. Existem dois grandes grupos, ou dois pilares, no crédito privado: o bancário e o corporativo. Esta é a primeira divisão ao se analisar o crédito privado.
Sobre o bancário, ele é oferecido por bancos e outras instituições financeiras, como Sociedades de Crédito, Financiamento e Investimento (Financeiras) às pessoas físicas e jurídicas a partir da captação de CDB, RDB e LC (letra de Câmbio) emitidos pelas próprias instituições. Portanto, nesta última ponta, eles captam por meio de instrumentos de crédito privado.
Já o crédito chamado de corporativo, ele é considerado desintermediado. Nessa modalidade, as empresas captam recursos diretamente do público por meio de debêntures, CRI, CRA, FIDC, etc que são estruturados por securitizadoras, gestores de recursos e até por bancos e são vendidos, ou distribuídos, pelas corretoras e plataformas.
Sem querer entrar muito à fundo na discussão sobre as diferenças, é possível notar uma distinção básica, qual seja, bancos e instituições financeiras (IF) usam seu próprio balanço para captar os recursos e emprestá-los ao público. Estas instituições foram criadas para isso, elas vivem de intermediar recursos e gerenciar esse risco. Nesse caso, quando compramos, por exemplo, um CDB de um banco, a preocupação é olhar o equilíbrio entre ativos e passivos e a qualidade do ativo, ou dos empréstimos. A inadimplência, e sua evolução, costuma ser um indicador bastante observado.
No caso do crédito chamado corporativo, as empresas captam recursos não para emprestar, mas para investir e sua atividade produtiva. Os recursos de um CRI vão para o financiamento de obras, os do CRA para a aquisição de suplementos agrícolas, por exemplo, os do FIDC para antecipar o pagamento de fornecedores e assim por diante. Empresas não financeiras não foram criadas para intermediar recursos financeiros, elas usam financiamento para alavancar e fazer crescer suas atividades produtivas.
Neste caso, a análise além do equilíbrio entre ativos e passivos, é preciso entender seus ciclos produtivo, planos de negócios, mercados consumidores, etc. Importante também compreender a qualidade e capacidade do time de gestão, tanto para planejar quanto para executar os planos. Trata-se de uma análise mais ampla sobre uma empresa cuja atividade principal não é cuidar da intermediação dos recursos, mas sim administrar produção e expansão dos negócios.
Se os dois grupos são diferentes, dentro deles também existem diferenças.
No caso do bancário, no Brasil a atividade é muito concentrada, com os cinco maiores bancos detendo algo como 70% dos ativos do sistema. Estes bancos, em geral captam CDB em torno de 100% do CDI, uma taxa sensivelmente menor que a da grande maioria dos bancos, cujos custos podem chegar a 130% do CDI, ou até mais.
Entre os emissores corporativos também existem diferenças de tamanho, qualidade da empresa, mercados em que atuam e time de gestão. Tudo isso precisa ser analisado quando se avalia a compra de um crédito corporativo. Em geral, por sua complexidade e particularidades, investidores costumam ser mais críticos e “pedem” mais retorno para compensar a percepção do risco.
Em um momento em que o crédito corporativo atinge tal tamanho, competindo lado a lado com o bancário, e frente as diferenças conceituais entre ambos (bancário e corporativo) e até as inerentes a cada setor, parece já ter passado da hora de qualificarmos melhor o que é crédito privado.
O guarda-chuva ficou pequeno.
Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos e professor na Administração da ESPM-SP.
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