Crise nos bancos médios impulsiona avanço dos FIDCs

  Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ganham terreno maior no portfólio de investidores brasileiros depois que a crise dos bancos médios comprimiu o prêmio dos CDBs. Os episódios recentes de fraude envolvendo bancos médios e o aperto regulatório sobre o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estão provocando mudanças no comportamento…

 

FIDC, Crise nos bancos médios impulsiona avanço dos FIDCs, Capital Aberto

Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ganham terreno maior no portfólio de investidores brasileiros depois que a crise dos bancos médios comprimiu o prêmio dos CDBs.

Os episódios recentes de fraude envolvendo bancos médios e o aperto regulatório sobre o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) estão provocando mudanças no comportamento do investidor, segundo especialistas ouvidos pela Capital Aberto.

Os CDBs continuam sendo, de longe, o investimento de renda fixa mais popular no país, com estoque de R$ 2,8 trilhões. Contudo, o avanço dos FIDCs indica que o investidor está buscando alternativas eficientes em termos de retorno para compor a sua carteira, observou Vicente Guimarães, diretor de RI do Grupo IOX.

“Antes, a decisão em renda fixa era muitas vezes guiada por uma pergunta simples: Qual produto paga o maior percentual do CDI com cobertura do FGC?”, destacou Guimarães. Agora o investidor começou a olhar menos para o número isolado da taxa e mais para a estrutura que sustenta aquele retorno, acrescentou.

Depois da crise com os bancos Master e Digimais, que ofereciam CDBs com rentabilidade muito acima da média do mercado, vemos uma parcela de investidores buscando também os FIDCs, de acordo com um analista de crédito que atua em banco.

Esses bancos médios ofereciam CDBs com taxas agressivas para atrair investidores, sob o argumento da segurança. Isso porque são investimentos que contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF e instituição financeira em caso de quebra.

Houve um arrefecimento no prêmio pago, especialmente nos bancos médios. Dados da Quantum Finance mostram que, em maio de 2026, as maiores taxas de CDBs de bancos pequenos e médios ficaram próximas de 106,9% do CDI.

Este patamar está bem abaixo dos níveis de 115% e 120% do CDI que eram usados como chamariz em anos anteriores, observou Guimarães. Com isso, perdeu força o modelo de venda baseado em prêmio muito alto, ancorado quase exclusivamente na percepção de proteção do FGC, acrescentou.

Captação de FIDCs cresce 36,5% de janeiro a maio ante 2025

Levantamento da Anbima mostrou que os FIDCs captaram R$ 41,7 bilhões entre janeiro e maio de 2026, alta de 36,5% em relação ao mesmo período de 2025. Em quantidade de operações, os FIDCs aparecem ainda mais fortes, com 406 operações no período, contra 237 de debêntures.

“Esse número é relevante porque coloca os FIDCs como o segundo maior instrumento de captação no mercado de capitais no acumulado do ano, atrás apenas das debêntures”, observou Guimarães.

Esse dado mostra ainda que o crescimento não está concentrado em poucas operações grandes, mas que há uma pulverização maior de estruturas, originadores e teses de crédito, segundo Guimarães. “Para o mercado, isso é importante porque indica amadurecimento da indústria”, explicou.

Na avaliação de Guimarães, o FIDC deixou de ser visto apenas como uma ferramenta de financiamento muito específica e passou a ocupar um papel mais recorrente na estratégia de empresas, gestoras, plataformas e investidores.

Outro dado relevante é a expansão da base de investidores, segundo ele. A Anbima informou que o número de contas de investidores em FIDCs passou de 172,2 mil em janeiro de 2025 para 331,4 mil em dezembro de 2025, alta de 92,5%. Isso ajuda a explicar por que o produto ganhou relevância em 2026.

“A demanda já vinha sendo construída antes, mas o cenário recente de reprecificação dos CDBs acelerou a discussão”, explicou Guimarães.

Os CDBs continuam sendo o investimento de renda fixa mais popular no país, e seu estoque continua crescendo, como mostram os dados da B3. Segundo o levantamento da bolsa, o estoque de CDBs chegou a R$ 2,8 trilhões em março de 2026, alta de 11% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Trata-se de um dos instrumentos financeiros mais tradicionais do mercado brasileiro e o título de renda fixa mais adquirido pelo investidor pessoa física, como apontou a B3 no levantamento.

Para o varejo, o ponto mais importante é não tratar o FIDC como substituto direto da reserva de emergência, afirmou Guimarães. Ele é um instrumento de crédito privado, com risco, prazo e estrutura, que pode ser uma alternativa eficiente para buscar retorno acima do CDB.

O ciclo de juros ainda altos contribui para a atratividade da renda fixa, mas o crescimento da indústria de FIDCs também reflete sua transformação regulatória, operacional e comercial, segundo Guimarães.

Segundo ele, a Resolução CVM 175 teve um papel importante ao permitir maior acesso de investidores a estruturas que antes ficavam restritas a públicos mais qualificados.

O FIDC é um instrumento que não tem volatilidade, mas é preciso estar atento aos riscos, segundo o analista do banco. Isso porque a volatilidade só aparece quando surgem os problemas que não dá mais para esconder, acrescentou.

No FIDC, o investidor precisa entender que não há FGC, observou Guimarães. Neste caso, o que protege a operação é a qualidade da estrutura, o que inclui lastro dos recebíveis, inadimplência, pulverização, critérios de elegibilidade, subordinação, garantias, fluxo de pagamento e governança, acrescentou.

“Um FIDC pode ser muito bem estruturado, mas também pode carregar riscos relevantes se houver concentração excessiva em poucos cedentes ou sacados, baixa subordinação, histórico fraco de cobrança ou pouca transparência nos relatórios”, explicou Guimarães.

Ele pondera que a indústria melhorou em governança, padronização, relatórios, acompanhamento de carteira e sofisticação de estruturas. Isso reduziu a distância entre o produto e o investidor final, acrescentou.

Fonte: Capital Aberto

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