
Em 2025, pela primeira vez na história, o mercado de capitais superou os bancos como principal fonte de financiamento das empresas brasileiras. O estoque de debêntures, CRIs,CRAs, FIDCs e notas comerciais atingiu R$ 2,7 trilhões — 23% do PIB. Nos últimos dez anos, esse volume mais que dobrou.
É um marco que o mercado celebrou com razão. Mas há uma pergunta desconfortável que ninguém está fazendo com a seriedade que merece: quem, nesse processo,pode estar ficando paratrás?
A respostapode estar nas recentesassembleias de credores. Casos comoRaízen e GPA, evidenciam desafios para os diferentes perfis de investidores das emissões.
Enquanto bancos e gestores institucionais reagiram em dias à maior recuperação extrajudicial da história do Brasil — R$ 65 bilhões em jogo —, boa parte dos investidores que compraramCRAsdessas empresas pelas plataformas de investimentodemorou para saber quehavia uma negociação em cursoe possuem mais dificuldade para se organizarem em assembleias e votarem pelos seus direitos.
O plano chegouquase quecomo fato consumado. A pressão era velada, mas clara: aceite, ou arrisque algo pior. Democratizamos o acesso ao crédito privado. Esquecemos de garantir que todos os participantes jogassem com as mesmas informaçõese possibilidades.
Isso não é um problema de má-fé. É um problema de infraestruturapreocupante.Ainformaçãodospapéisde crédito privadoestá espalhada entre emissores, securitizadoras, agentes fiduciários,CVM e B3, em formatos, nomenclaturas e profundidades que não conversam entre si.
Há requisitos regulatórios de divulgação, mas a forma de preenchimento não é padronizada. O resultado é que comparar dois papéis com estruturas parecidas pode exigir horas de um analista experiente. Para o investidor comum, équase que,simplesmente,inviável.
E aqui está a contradição que o mercado prefere não encarar: nas últimas duas décadas, o Brasil fez um trabalho notável em democratizar o acesso. Surgiramdezenasdegestoras,centenas deescritórios de agentes autônomos, plataformas que colocaram o crédito privado ao alcance demilhõesde investidores.
Mas enquanto ampliávamos a porta de entrada, deixávamos a sala completamente às escuras. O investidor chegou ao crédito privado sem informação suficiente para entender o que estava comprando — e sem qualquer estrutura que o representasse quando as coisas dessem errado.
A consequência é um mercado estruturalmente assimétrico. Quando uma empresa chega à reestruturação, quem tem equipe, acesso antecipado às informações e poder de barganha“senta”à mesa e negocia.
Quem não tem,aceita o que sobra — ou descobre tarde demais que não sobrou nada. Essa assimetria não é acidental. Ela é o produto direto de um mercado que cresceu sem construir a infraestrutura de informação, atendimento e acompanhamento pós-vendaque seu tamanho exige.
Sem dados padronizados, não há precificação eficiente no secundário. Sem precificação eficiente, não há liquidez real. Sem liquidez, o investidor que precisa sair não consegue — e o que fica não sabe exatamente o que está segurando.
A saída não é fechar a porta para oinvestidor individual. É parar de tratar a padronização da informação como um detalhe operacional ereconhecê-la como uma questão de isonomia. A agenda regulatória deveria exigir, como prioridade, que emissores, securitizadoras e agentes fiduciários reportem com campos obrigatórios, nomenclaturas unificadas e atualização tempestiva — não como favor ao mercado, mas como condição para participar dele.
E o acesso do investidor pessoa física ao crédito privado direto merece uma conversa honesta: num mercado em que a reestruturação é cada vez mais parte do ciclo, a proteção real vem da gestão profissional, não da ilusão de que diversificar entre dez emissores é o suficiente.
É notório que, como em toda situaçãode estresse, o mercado aprende. Vejo boas iniciativastentando organizar credores e investidores individuais em casos como os que estamos observando, mas sem uma maior educação dos investidores individuais, maior atenção aos detalhes e acompanhamento de seus próprios papéis em carteira e, principalmente, maior participação nas discussões – muitas assembleias com investidores pessoas físicas tem dificuldade em obter quórum para deliberações, grande parte pela ausência de interesse e participação dos próprios investidores – dificilmente o investidor individual terá os melhores resultados nessas situações.
O Brasil construiu, em trinta anos, um mercado de capitaisque caminha em direção às necessidades da sua economia. Isso é real e merece reconhecimento. Mas um mercado de R$ 2,7 trilhões que trata a informação como privilégio de quem pode pagar por ela não é um mercado democrático. É um mercado grande com as mesmas desigualdades de sempre, só que embrulhadas em novos produtos.
Democratizar de verdade é garantir que a informação chegue a todos — antes da crise, não depois.
Daniel Magalhães é fundador daVitrify
Fonte: Capital Aberto
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