
Recentemente, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, usou uma metáfora incômoda para descrever o momento do crédito privado nos Estados Unidos: “quando você vê uma barata, provavelmente há mais delas”. A declaração ele faz em meio a falência de duas empresas gigantes, consideramos como a ‘RJ da Americanas’ nos EUA. O alerta traduz a percepção de que períodos de desaceleração econômica expõem riscos que estavam escondidos, e que as perdas no crédito tendem a ser maiores do que o normal quando a economia real começa a enfraquecer.
O raciocínio é válido e dialoga com uma leitura que costumo reforçar há algum tempo. No mercado de crédito, o que mais machuca não é o juro alto, mas o PIB fraco. Juros elevados desafiam, exigem eficiência, estratégia e capacidade de gestão. Mas quando as empresas continuam vendendo, o crédito segue funcionando. O custo pesa, mas o caixa gira.
O problema começa quando as vendas param. Quando o faturamento diminui, a margem encolhe e os compromissos continuam chegando, o crédito deixa de ser instrumento de crescimento e passa a ser tentativa de sobrevivência. É nesse ponto que a inadimplência se espalha e os sinais de deterioração aparecem, um por um.
No artigo “Selic assusta menos quem já aprendeu conviver com o risco”, defendi que a taxa de juros, isoladamente, não destrói negócios bem estruturados. Empresas que conhecem seus riscos, têm boa governança e mantêm fluxo constante de receita conseguem atravessar ciclos de aperto monetário. O juro alto é, no máximo, um teste de fôlego, já o PIB fraco é a falta de ar.
E no texto “Economia do Brasil em 2025 vai além dos manuais”, mostrei que a dinâmica brasileira escapa das teorias lineares. O país é movido por uma economia heterogênea, onde cadeias produtivas, consumo e setores específicos reagem de maneiras distintas. Por isso, acompanhar apenas o comportamento da Selic é insuficiente para entender o que realmente está acontecendo com o crédito. O PIB revela mais, porque ele mostra se há demanda, se há caixa nas empresas e se o sistema ainda está respirando.
O alerta de Dimon sobre as “baratas” pode até vir de outro mercado, mas o princípio é o mesmo. Os primeiros sinais de estresse aparecem nas bordas, e quase sempre são consequência de uma economia que perde tração. Quando o PIB desacelera, o crédito é o primeiro a sentir. O desafio, portanto, é enxergar os sintomas antes que eles se tornem epidemia.
A lição é simples e prática, enquanto os juros altos testam, mas não quebram, o PIB fraco corrói por dentro os negócios. E quem concede crédito, investe ou lidera empresas precisa entender essa diferença. Porque no fim, o que determina a saúde do mercado de crédito não é o preço do dinheiro, mas a vitalidade da economia real que o sustenta.
Autor: Volnei Eyng
Fundador e CEO da Multiplike, uma gestora de recursos com 25 anos de história e mais de 30 bilhões de crédito cedido.
Sócio benemérito da ABRAFESC;
Graduado em Administração e Economia;
MBA na HSM Management em Gestão de Negócios;
MBA em Macroeconomia.
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