BC vê alta da inadimplência e acende alerta para fintechs e bancos digitais

Para não se dar mal, setor de crédito deve mudar de postura e priorizar qualidade em vez de expansão acelerada, avisam especialistas O Banco Central (BC) prevê, no Relatório de Política Monetária divulgado na última quinta-feira (25/6), que a inadimplência das famílias brasileiras pode bater um novo recorde nos próximos meses. Se essa previsão se…

Imagem: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

O Banco Central (BC) prevê, no Relatório de Política Monetária divulgado na última quinta-feira (25/6), que a inadimplência das famílias brasileiras pode bater um novo recorde nos próximos meses. Se essa previsão se confirmar, as fintechs e os bancos digitais devem sentir o golpe primeiro. Aliás, devem sentir essa pancada com mais força do que os bancos tradicionais, segundo especialistas ouvidos pelo Finsiders Brasil.

O motivo, afirmam eles, está na composição das carteiras desses negócios. Primeiramente, elas estão concentradas em crédito sem garantia. Além disso, atendem um público que ganhou acesso ao sistema financeiro há pouco tempo.

De acordo com a autoridade monetária, os atrasos em pagamentos seguem em patamar historicamente elevado desde o início deste ano. Enquanto isso, o endividamento e o comprometimento da renda das famílias permanecem em níveis altos. Segundo o BC, a alta recente da inadimplência vem principalmente do crédito livre.

“Com destaque para o aumento nos atrasos de financiamento de veículos, crédito pessoal não consignado e crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Medidas recentes que promovem a renegociação de dívidas de pessoas físicas tendem a reduzir a taxa de inadimplência nas linhas elegíveis nos próximos meses”, diz o relatório. Portanto, apesar do diagnóstico atual, o BC aposta que as renegociações em curso ajudem a aliviar os números adiante.

Inadimplência: fintechs e bancos digitais são os mais afetados

Rafael Nakamoto e Victoria Lopes Iori, executivos da fintech Vitório, explicam que o problema deve atingir primeiro as fintechs e bancos digitais que trabalham com crédito sem garantia.

“Quem está em crédito sem garantia mar aberto acaba sofrendo primeiro”, afirmam os executivos.

“Os dados da Equifax BoaVista confirmam essa tendência. Nos bancos digitais e fintechs, a inadimplência em cartão saltou de 7,71% em 2021 para 20,31% em 2025. No empréstimo pessoal, o salto foi de 6,55% para 13,93%. Nesse mesmo período, o saldo de crédito ativo desses bancos avançou mais de 360%”, avaliam os executivos.

A dupla também cita um levantamento do BTG Pactual sobre os saldos vencidos. Nos cartões emitidos por bancos digitais, essa parcela subiu de 5,77% para 11,16%. Já nos bancos tradicionais, a deterioração foi bem menor, de 6,60% para 8,75%.

Por outro lado, há modelos mais protegidos dentro do próprio universo das fintechs.

Conforme Rafael e Victoria, operações como antecipação de recebíveis com agenda registrada, supply chain finance com duplicata escritural e contratos com gravame ou cessão fiduciária formam uma categoria de risco diferente. Afinal, essas operações têm lastro real, ao contrário da fatura de cartão sem garantia.

Vanderson Aquino, CEO do grupo financeiro Mêntore e especialista em gestão financeira e estratégia empresarial, segue a mesma linha. Questionado sobre quais fintechs tendem a sofrer mais com uma inadimplência recorde, ele aponta a exposição ao risco como fator central.

“Instituições com maior exposição a carteiras de maior risco naturalmente sentirão mais os efeitos da inadimplência. O ponto central, porém, é outro: como manter a oferta de crédito de forma responsável em um ambiente mais difícil”, diz Vanderson.

Para ele, o maior teste não está apenas em conter perdas, mas em sustentar o financiamento de empresas e famílias mesmo em condições mais apertadas.

Crédito mais caro e mais restrito à vista

Com o alerta ligado, bancos digitais e fintechs já devem estar reduzindo limites e reprecificando o risco de parte dos clientes. Segundo Rafael e Victoria, esse movimento aparece nos dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR) levantados pelo Itaú BBA em abril deste ano. Inclusive, algumas instituições já reforçaram alertas e ferramentas de controle dentro dos próprios aplicativos.

“O efeito para o consumidor é de duas pontas. Pela ótica de estabilidade, é saudável, ou seja, menos gente entrando em bola de neve. Mas há um custo social de inclusão: foi exatamente esse público que ganhou acesso recente”, afirmam os executivos da Vitório.

Atualmente, segundo eles, os bancos digitais atendem com exclusividade quase metade dos clientes de cartão e mais da metade dos de empréstimo pessoal no Brasil, depois de abrir o sistema para cerca de 61 milhões de brasileiros.

Por isso, restringir crédito de forma ampla pode empurrar parte desses clientes de volta para o rotativo do cartão. Essa linha já cobra juros de três dígitos ao ano. Outro caminho possível é a saída desses clientes do sistema financeiro formal.

Vanderson chama atenção para esse mesmo risco, ainda que com outro enfoque.

“É natural que, diante de um cenário de maior risco, as instituições financeiras revisem seus critérios de concessão de crédito. O ideal, porém, é que esse movimento seja feito de forma seletiva, e não generalizada”, diz o CEO do grupo Mêntore.

Conforme ele, restringir o crédito de forma indiscriminada pode frear investimentos, consumo e geração de renda.

Tecnologia ajuda, mas não elimina o problema

Quanto à capacidade de identificar quem oferece menos risco, Vanderson lembra que a Inteligência Artificial e o monitoramento das carteiras já fazem parte do dia a dia de bancos e fintechs.

“O mercado evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, tanto fintechs quanto instituições financeiras tradicionais utilizam ferramentas cada vez mais sofisticadas de análise de dados, Inteligência Artificial e monitoramento das carteiras”, explica.

Todavia, segundo ele, isso não elimina os efeitos de uma deterioração econômica.

“Mas permite decisões mais rápidas e uma gestão de risco mais eficiente”, completa.

Bancos tradicionais versus fintechs: quem se sai melhor?

Caso a inadimplência permaneça elevada por mais tempo, quem tende a sair melhor dessa fase no curto prazo, de acordo com Rafael, são os grandes bancos.

Segundo ele, essas instituições estão em posição mais confortável. Os próprios números do BC ajudam a explicar o motivo. As instituições fora do grupo S1, que reúne os maiores bancos do país, já respondem por 55% do estoque de inadimplência em cartão tendo apenas 45% da carteira total. No empréstimo pessoal, essas mesmas instituições respondem por 60% dos atrasos com 55% da carteira.

“O risco migrou estruturalmente para fora dos bancões”, completa o executivo.

Segundo ele, soma-se a isso o custo de funding. Banco grande capta depósito barato. Já a fintech depende de Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), securitização e crédito privado, instrumentos usados por fintechs para captar recursos no mercado.

Vanderson, por sua vez, evita comparações diretas entre os dois modelos de negócio. Para ele, cada formato tem características próprias.

“Mais do que comparar quem está mais preparado, o importante é fortalecer um sistema financeiro competitivo”, afirma o CEO.

Segundo o especialista, quanto maior a concorrência e a diversidade de soluções, maiores são as possibilidades de ampliar o acesso ao crédito para empresas e consumidores.

Fintechs: foco na qualidade da carteira e novas estratégias

A fase de crescimento acelerado a qualquer custo parece estar com os dias contados. Victoria aponta que parte dessa expansão recente veio concentrada em poucos nomes do setor. Ela cita um levantamento do Goldman Sachs.

Conforme esse levantamento, a originação líquida de uma única fintech superou a soma de todo o grupo S2 no primeiro trimestre deste ano (1T26).

A virada de estratégia, segundo a executiva, já está em andamento e segue três caminhos principais.

O primeiro caminho é a migração para crédito com garantia e prazo curto. Entram nessa frente o consignado privado, viabilizado pelo novo Crédito do Trabalhador, e a antecipação de recebíveis. Esse programa foi criado pela Lei 15.179/2025 e é operado via Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) Digital. Inclusive, o supply chain finance entre empresas também ganha espaço nessa frente.

O segundo caminho passa por estruturar o funding através de FIDCs. As fintechs usam subordinação de cotas e sobrecolateralização para precificar melhor o risco das safras recentes de crédito.

O terceiro caminho é de natureza prudencial.

“A fintech que opera via parceiro regulado vai ter de internalizar a lógica da 4.966 nos contratos de originação. A deterioração de safra hoje aparece no balanço do parceiro IF/SCD. Contrato que joga risco para o parceiro sem precificar provisão é problema esperando para acontecer”, alerta Victoria, em referência à Resolução CMN 4.966. Essa norma trata das regras contábeis para Instituições Financeiras (IF) e Sociedades de Crédito Direto (SCD).

Vanderson reforça essa leitura ao tratar das mudanças que o cenário do BC deve provocar entre as fintechs.

“O cenário reforça uma tendência de crescimento baseada cada vez mais em qualidade da carteira, eficiência e sustentabilidade”, diz o CEO do grupo Mêntore.

Segundo ele, em um ambiente de juros elevados e maior inadimplência, o foco deixa de ser apenas expandir a concessão de crédito. Passa a ser, então, oferecer soluções financeiras que atendam às necessidades de empresas e consumidores com segurança e previsibilidade.

FONTE: Finsiders Brasil

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