
O mercado global de grãos começa a indicar mudança de ciclo após um período prolongado de compressão de margens no campo. A avaliação é do doutor em Economia Aplicada, Alexandre Mendonça de Barros, que aponta uma mudança estrutural baseada na combinação de crescimento contínuo da produção e início da retração dos estoques globais.
Segundo o economista, esse movimento sinaliza o esgotamento da fase de preços deprimidos típica de ciclos marcados por expansão de oferta. O aumento da produção pressiona as cotações, desestimula investimentos e leva à retração da oferta. Na sequência, o mercado se ajusta e abre espaço para recuperação dos preços, com cada fase durando entre três e quatro anos. “O preço baixo hoje não reflete equilíbrio de mercado, mas a incapacidade de retenção do produtor. Isso altera o comportamento comercial e antecipa oferta no curto prazo”, explicou Barros.
Um dos sinais mais evidentes dessa distorção é o descolamento entre preços domésticos e internacionais. A soja caiu cerca de R$ 20 por saca no Brasil, enquanto a Bolsa de Chicago registrou valorização. No milho, a queda ocorre mesmo durante a entressafra, período normalmente marcado por menor oferta e sustentação das cotações. “Produtores com alto endividamento e forte dependência de crédito, pressionados por juros ao redor de 15%, vendem na colheita para fazer caixa e financiar a safra seguinte. A decisão deixa de considerar apenas expectativa de preço e incorpora custo do capital. Mesmo diante de possível valorização futura, não há viabilidade econômica para retenção de estoques”, analisa Barros.
Crédito restrito
A inadimplência no crédito rural para pessoas físicas saiu entre 1,5% e 2,5% em 2024 para mais de 7% no início de 2026, indicando deterioração rápida da capacidade de pagamento. “A elevação ocorreu de forma contínua ao longo de 2025, com aceleração no final do ano, enquanto o prazo médio das operações permanece em torno de 1,3 a 1,5 ano. Isso mostra que o movimento está associado ao aumento do atraso e não à reestruturação dos contratos”, detalha o especialista.
O novo modelo regulatório antecipa o reconhecimento de risco de crédito, exigindo provisões baseadas em perda esperada já a partir de 90 dias de atraso, podendo chegar a 100%, sem eliminar completamente referências anteriores, como o marco de 180 dias. “O ajuste elevou o risco para instituições financeiras e contribuiu para restrição na oferta de crédito. Na safra 2025/26, desembolsos das linhas tradicionais do crédito rural recuam entre 12% e 16% na comparação anual, especialmente em custeio e investimento. Em linhas de investimento, a retração supera 20%, refletindo maior seletividade dos bancos diante da inadimplência”, pontua Barros.
O economista reforça que o aumento da inadimplência eleva o custo de risco para os bancos, restringe crédito e pressiona financeiramente o produtor. “Com menos acesso a recursos, diminui a capacidade de reter a produção e cresce a necessidade de venda imediata, ampliando oferta e pressionando preços, mesmo diante de fundamentos globais que poderiam sustentar cotações”, afirma.
Política monetária
A política monetária restritiva convive com uma economia doméstica aquecida. O desemprego está em mínima histórica, cerca de 5,1%, e a massa real de renda cresceu 3,7% nos últimos 12 meses. Projeções indicam inflação de até 4,1% até o final de 2026. “O cenário sustenta o consumo interno, mas crédito caro limita investimentos, criando distorção entre demanda e capacidade produtiva”, pondera Barros.
O real vive um momento de valorização frente ao dólar em 2026, com a moeda americana em torno de R$ 5,30 em março. Esse movimento é impulsionado pelo enfraquecimento global do dólar, entrada de capital estrangeiro no Brasil atraído por diferencial de juros, além de fatores geopolíticos que favorecem mercados emergentes. “Exportadores de soja, milho e carnes perdem competitividade quando a receita em dólar é convertida para reais, enquanto segmentos voltados ao mercado interno se beneficiam do custo menor dos insumos. Com grãos mais baratos, a ração recua e melhora margem de ovos e proteína animal”, avalia o economista.
Insumos mais caros
A base produtiva já mostra ajuste técnico. O uso de fósforo caiu cerca de 9%, segundo Barros, mesmo com o volume total de fertilizantes estável, indicando risco à fertilidade do solo e à produtividade nos próximos ciclos.
O movimento ocorre em um cenário de oferta elevada – estimativas da Conab apontam para 177,8 milhões de toneladas de soja e cerca de 108,4 milhões de toneladas de milho safrinha, com comercialização antecipada limitada, o que concentra vendas no pós-colheita e pressiona preços. “Venda forçada, crédito restrito, custo elevado de capital e frete mais caro deve impedir a reação típica de alta ao longo do ano. O preço reflete a liquidez do produtor, não apenas o estoque físico” salienta Barros.
Nesse contexto, o sorgo ganha espaço como alternativa ao milho, com menor custo e menor exigência hídrica. O Brasil já responde por cerca de 8% da produção mundial, e a expansão da área permite ao cereal atuar como substituto parcial na ração, limitando altas mais intensas de preços.
Barros destaca ainda que a demanda por etanol de milho amplia seu peso, com consumo das usinas devendo atingir 24,5 milhões de toneladas no ciclo 2025/26, alta de até 17% sobre a safra anterior. “O setor sustenta parcialmente os preços, mas com disciplina de compra, aproveitando momentos de pressão para recompor estoques”, enfatiza.
Camada extra de risco
No cenário externo, a geopolítica eleva os riscos para o mercado de fertilizantes. A produção de nitrogenados depende diretamente do gás natural, tornando os custos sensíveis a oscilações no mercado de energia. Além disso, grande parte do fluxo global de petróleo, gás e insumos passa pelo Estreito de Ormuz. “Qualquer interrupção nessa rota provoca alta rápida nos preços desses insumos, elevando os custos de produção agrícola em diversos países. O bloqueio ocorrido em março pelo Irã desencadeia um efeito em cascata em toda a cadeia”, reforça Barros.
Outros gargalos também pressionam a cadeia de insumos. O enxofre, essencial na produção de ácido sulfúrico e fertilizantes fosfatados, tem cerca de 50% do comércio global concentrado na mesma região, aumentando o risco sistêmico em caso de interrupção do fluxo natural de mercados. A cadeia do fósforo, por sua vez, já enfrenta pressão com o aumento da demanda chinesa.
Barros salienta que os efeitos logísticos são imediatos. O preço do diesel no Brasil subiu quase 20% após os conflitos no Oriente Médio, encarecendo o frete. “No curto prazo, isso reforça a queda dos preços locais, especialmente do milho. No médio prazo, o impacto mais relevante é o encarecimento dos fertilizantes. Com o Brasil dependente de importações e lead time logístico de dois a três meses, a capacidade de reação é limitada. O país precisa antecipar compras em um ambiente de alta volatilidade, o que tende a reduzir a aplicação de insumos e afetar a produtividade”, relata o economista.
O mesmo movimento ocorre simultaneamente no Hemisfério Norte, onde o calendário agrícola exige decisões imediatas. A demanda por fertilizantes nas próximas semanas coloca em risco o plantio da safra seguinte. Nos Estados Unidos, há sinais de migração de área do milho, cultura mais intensiva em nitrogênio, para a soja. “A atuação dos hedge funds no mercado internacional acelera esse movimento. Depois de apostarem na queda do milho, esses investidores mudaram rapidamente de posição e passaram a apostar na alta diante do risco de menor oferta. Essa mudança contribui para puxar os preços e antecipar o ajuste do mercado”, observa Barros.
O economista destaca ainda a transição de La Niña para El Niño, fenômeno que amplia riscos ao afetar simultaneamente importantes regiões produtoras, como o Meio-Oeste dos Estados Unidos, Índia e Austrália. Nesse cenário, o risco deixa de ser localizado e passa a impactar a produção global. “No curto prazo, a combinação de safras volumosas, crédito restrito e necessidade de caixa mantém soja e milho pressionados. No médio prazo, a fragilização da base produtiva e os choques de custo criam condições para uma virada de ciclo, com potencial de alta mais intensa caso eventos climáticos ou geopolíticos acelerem esse movimento”, enfatiza.
Fonte: O Presente Rural
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