Fundos de crédito sofrem também com risco de mercado

Eventos que ocuparam noticiário no primeiro semestre assustaram investidores Numa amostra que acompanha no mercado de fundos de renda fixa que têm seus resultados predominantemente vindo de ativos de crédito, a Bradesco Asset Management contabiliza resgates líquidos de R$ 114 bilhões no ano, até o fim de junho. As saídas foram concentradas em abril e…

Numa amostra que acompanha no mercado de fundos de renda fixa que têm seus resultados predominantemente vindo de ativos de crédito, a Bradesco Asset Management contabiliza resgates líquidos de R$ 114 bilhões no ano, até o fim de junho. As saídas foram concentradas em abril e maio, em todos os perfis de carteira – desde aquelas atreladas ao CDI às mais arrojadas -, tanto em gestoras independentes quanto nas ligadas a bancos.

O fluxo negativo foi observado principalmente nos portfólios que investem em debêntures incentivadas, afirma Ana Rodela, executiva-chefe de investimentos (CIO) da gestora. Ela lembra que o segmento sofre não só com eventos de crédito, que ocuparam o noticiário em série no primeiro semestre, mas também com risco de mercado.

Houve um excesso de papéis que testou os limites de baixa dos spreads, a diferença das taxas em relação aos títulos públicos de referência. “Bateu num nível que não fazia sentido para ninguém comprar, mas com uma fila grande de ofertas para vir. Foi como uma grande mola comprimindo o spread – na hora que ninguém quis mais, subiu rapidamente.”

Nos fundos de debêntures incentivadas, a atualização dos ativos a preços de mercado acaba machucando muito porque as carteiras têm prazo médio (“duration”) longo, continua a executiva da Bradesco Asset. “As cotas foram bem ruins para o mercado como um todo, e o investidor se assustou, até confundindo o impacto com problemas de crédito que aparecera na mídia”.

Nas interações com a rede, Rodela conta que a “sensação é que o cliente não quer ouvir falar de crédito privado”, com assessores pedindo explicações ao perceber o investidor muito refratário e querendo vender tudo o que tinha na carteira. “Nessa hora, ele tende a ir para a ponta mais extrema”, acrescenta, referindo-se às alternativas atreladas à Selic ou ao CDI em títulos bancários ou públicos.

O estresse recente contrasta, contudo, com episódios anteriores em que os gestores foram obrigados a se desfazer de ativos bons para honrar os pedidos de resgates. O setor entrava numa espiral negativa de preços para baixo, o cliente se assustava com a cota e demorava para normalizar. “A gente não viu fundo com problema ou gestora com dificuldade para ter liquidez. Funcionou pela primeira vez para a indústria de debêntures incentivadas”, diz Rodela. É um bom prenúncio para frente.

João Abdouni, analista de renda fixa da EQI Research, avalia que o crédito privado isento ainda é atrativo para determinados papéis. “Saem na mídia aqueles casos que dão estresse, isso acaba contagiando e outros papéis podem sofrer com a marcação, com a volatilidade advindo não necessariamente de problemas na empresa”, afirma. “Tem muito papel bom com retorno acima do título público.” Não é nada sistêmico, mas acaba transbordando para outros ativos, acrescenta a analista Carolina Carvalho, também da casa.

No segmento de dívida, a Est tem privilegiado o crédito estruturado via fundos de investimentos em direitos creditórios (FIDC) que costumam ter ativos de prazo mais curtos e de risco diversificados, diz André Freitas, sócio e especialista em portfólios da gestora. O produto oferece camadas de proteção na divisão de cotas sênior, subordinada e mezanino. “A gente não gosta muito de alocar em fundos que tentam ganhar algo a mais do CDI, com exposição em crédito grande, porque quando tem um evento, tem contágio, o fundo acaba sofrendo e, para se recuperar, leva tempo.”

Fonte: Valor Econômico

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