Guerra, inflação, juros altos: um teste de ciclo para o mercado de crédito

As manchetes recentes sobre o mercado de crédito ajudam a chamar atenção, mas não necessariamente a entender o que está acontecendo. Expressões como “freio”, “mau humor” ou “esgotamento” criam a sensação de que o crédito entrou em um território desconhecido, quando, na verdade, o que vemos é um movimento bastante conhecido por quem acompanha esse…

Imagem via ChatGPT

As manchetes recentes sobre o mercado de crédito ajudam a chamar atenção, mas não necessariamente a entender o que está acontecendo. Expressões como “freio”, “mau humor” ou “esgotamento” criam a sensação de que o crédito entrou em um território desconhecido, quando, na verdade, o que vemos é um movimento bastante conhecido por quem acompanha esse mercado há mais tempo.

De um lado, a mídia aponta para a abertura de spreads, retorno abaixo do CDI em parte dos fundos e um investidor mais cauteloso, após dois anos de forte compressão de risco. De outro, o CEO do maior banco do mundo alerta que a combinação entre guerra, inflação mais persistente e juros elevados pode gerar uma correção mais ampla nos mercados de ativos. Tudo isso é extremamente relevante, mas não é inédito.

O erro começa quando esses sinais são tratados como uma ruptura estrutural, e não como um ajuste de ciclo.

Quando o crédito vira manchete, geralmente é porque o ciclo virou

O crédito raramente vira protagonista nos períodos de estabilidade. Ele aparece com força justamente quando o mercado precisa reaprender a precificar risco. Nos últimos anos, a indústria viveu um ambiente de abundância relativa de capital, spreads comprimidos e uma tolerância maior a estruturas mais frágeis. Isso não aconteceu por descuido, mas porque o contexto macro permitia esse comportamento. O que mudou agora não foi a existência do crédito, mas o seu preço.

O alerta feito por Jamie Dimon, ao falar de um possível novo choque inflacionário e de juros mais altos por mais tempo, não aponta para o colapso do sistema financeiro, mas para o fim de um período mais benigno. Também precisamos entender que o mercado de crédito privado lá no EUA é diferente daqui. Lá a alavancagem é maior, os spreads são menores e as estruturas são de maiores riscos do que no Brasil.

Nesse ambiente, é natural que fundos revisem posições, investidores recalibrem expectativas e estruturas menos robustas sintam o impacto primeiro. Isso não caracteriza uma crise do crédito, mas uma reordenação das prioridades do mercado.

O crédito no Brasil já viveu diferentes ciclos

É aqui que a análise superficial costuma falhar. Ao olhar apenas para o crescimento recente do crédito privado, muitos concluem que se trata de uma indústria jovem, ainda não testada por ciclos mais duros. Essa leitura ignora completamente a história.

O mercado de FIDCs no Brasil, por exemplo, já atravessou crises financeiras globais, choques de liquidez, mudanças abruptas de política econômica, períodos prolongados de instabilidade política e, mais recentemente, uma pandemia que paralisou setores inteiros da economia. Em todos esses momentos, o crédito estruturado não apenas sobreviveu, como evoluiu.

Essa evolução não foi espontânea. Ela veio acompanhada de avanços regulatórios, aprimoramento dos modelos de governança, maior sofisticação operacional e um aprendizado coletivo sobre estruturação, análise de risco e alinhamento de interesses. O que hoje parece consolidação é, na verdade, o resultado de um processo longo, evolutivo e, muitas vezes, pouco visível fora do mercado.

O crescimento recente não invalida a maturidade do mercado

É verdade que o crescimento do mercado privado de crédito, especialmente os FIDCs, se intensificaram nos últimos três anos. Mas isso não significa que a indústria tenha sido construída nesse intervalo. O que aconteceu foi a convergência entre um arcabouço regulatório mais maduro, uma demanda crescente por alternativas de crédito fora do sistema bancário tradicional e um investidor mais disposto a entender estruturas diferentes.

Confundir visibilidade com imaturidade é um erro comum. Mercados consolidados também passam por fases de expansão acelerada e por momentos de ajuste. A diferença está na capacidade de absorver choques sem comprometer sua função essencial.

E essa função essencial permanece intacta, de financiar a economia real de forma estruturada, com mecanismos de mitigação de risco que não dependem exclusivamente do humor do mercado no curto prazo.

O crédito não desaparece quando o cenário piora

Uma ideia recorrente em momentos como este é a de que “o crédito secou”. Na prática, o que acontece é que o crédito deixa de ser acessível para quem dependia de condições excepcionalmente favoráveis.

Empresas bem organizadas, com governança, informação consistente e estruturas adequadas continuam encontrando capital. Talvez com mais exigências, talvez a um custo maior, mas encontram. Já aquelas que operavam no limite da tolerância do mercado sentem o ajuste com mais força, e isso não é um defeito do sistema, mas uma de suas funções.

O próprio alerta internacional reforça essa lógica. Quando líderes do sistema financeiro global falam em correção de preços de ativos, não estão defendendo retração indiscriminada, mas uma realocação mais racional do risco.

Menos manchete, mais perspectiva

O papel do mercado não é eliminar ciclos, mas atravessá-los. E o papel da análise responsável é separar ajuste de colapso, seletividade de escassez, prudência de medo. O estágio atual da indústria de crédito não é de fragilidade, mas de teste. Teste de estrutura, de governança, de disciplina e de capacidade de adaptação.

Talvez o maior risco neste momento não esteja no crédito em si, mas na leitura apressada dos sinais. Manchetes alarmam, mas ciclos econômicos ensinam e amadurecem a indústria. E o histórico do crédito estruturado no Brasil mostra que ele aprende e se fortalece exatamente nesses momentos.

Autor: Volnei Eyng

Fundador e CEO da Multiplike, uma gestora de recursos com 25 anos de história e mais de 30 bilhões de crédito cedido.

Sócio benemérito da ABRAFESC;

Graduado em Administração e Economia;

MBA na HSM Management em Gestão de Negócios;

MBA em Macroeconomia.

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