
O mercado de dívida brasileiro cresceu e amadureceu, mas segue olhando, com frequência, para os mesmos grupos de ativos. Enquanto isso, uma massa relevante de créditos segue fora do radar.
Não se trata, necessariamente, de créditos ruins, litigiosos ou de difícil compreensão econômica. São recebíveis vinculados à economia real, detidos por credores pulverizados, mas devidos por sacados de alta qualidade.
A próxima fronteira do crédito privado pode estar menos em financiar diretamente o emissor tradicional e mais em financiar quem tem dinheiro a receber dele.
A tese é simples: acreditamos que há uma correlação positiva entre a consolidação do financiamento ao emissor tradicional e o valor relativo de operações lastreadas em créditos pulverizados cujo devedor final apresenta qualidade de crédito superior à do próprio titular do recebível.
É a inversão da lógica usual. No lugar de olhar apenas para a grande companhia, o mercado passa a olhar também para o fornecedor, o proprietário de terra, o prestador de serviço, a clínica credenciada, o locador de área, o pequeno contratado e outros agentes que orbitam projetos e grandes empresas.
O Brasil oferece um terreno particularmente fértil para essa discussão. Nosso país combina escala territorial, densidade econômica e capilaridade institucional: são mais de 8,5 milhões de km², população estimada em 213,4 milhões de habitantes e uma economia que alcançou PIB de R$ 12,7 trilhões em 2025.
Essa dimensão continental, somada à diversidade produtiva regional e à presença de cadeias econômicas relevantes em praticamente todos os estados, ajuda a explicar por que ainda há amplo espaço para soluções de mercado de capitais voltadas a nichos subaproveitados.
O mercado de dívida avançou muito nos últimos 20 anos. Houve aperfeiçoamento de diversas modalidades de títulos obrigacionais, moldadas para diferentes realidades e objetivos. Em 2025, a B3 registrou R$ 647,5 bilhões em emissões públicas de dívida corporativa, incluindo debêntures, CRI, CRA e notas comerciais.
O estoque desses produtos chegou a R$ 1,97 trilhão ao fim do ano. No primeiro trimestre de 2026, a B3 informou que o estoque de títulos de renda fixa corporativa alcançou R$ 2 trilhões, com R$ 1,52 trilhão apenas em debêntures.
A indústria de fundos confirma a mesma tendência. Segundo a ANBIMA, a indústria encerrou 2025 com patrimônio líquido de R$ 10,7 trilhões, alta de 15% no ano.
Os FIDCs captaram R$ 57,6 bilhões líquidos. No mesmo período, o número de contas de investidores em FIDCs passou de 172,2 mil em janeiro para 331,4 mil em dezembro, crescimento de 92,5%.
Esse movimento é bem-sucedido. Mas, de certo modo, também levou o mercado brasileiro de dívida a uma concentração relevante em produtos já conhecidos: debêntures de grandes companhias, CRI e CRA com lastros tradicionais, FIDCs de cadeias comerciais usuais, crédito consignado, cartão, varejo, duplicatas e operações de fornecedores já capturadas por programas estruturados desupplychainfinance.
Fora desse eixo, existe uma cadeia extensa e bilionária de operações que fogem ao padrão tradicional,e uma das respostas para esse desafio pode estar na ampliação das alternativas de originação.
Mais do quecriar novosinstrumentos, talvez seja necessário desenvolver novas formas de encontrar, organizar e financiar ativos que já existem.
O prêmio relativo nessas operações tende a ser mais alto do que aquele que seria exigido diretamente do devedor tradicional de baixo risco. Ainda assim, há um intervalo relevante entre a taxa aplicável a um emissor de primeira linha e a taxa aplicável ao credor não tradicional cujo crédito esteja lastreado nesse mesmo devedor.
Naturalmente, nem todos os ativos serão elegíveis. Mas, seguindo essa lógica, é possível pensar em recebíveis de fornecedores deoil&gas; fornecedores de transmissoras, distribuidoras e geradoras de energia; fornecedores de saneamento; arrendamentos, direitos de superfície, servidões e locações vinculados a projetos de energia, combustíveis, transmissão, logística e infraestrutura; locadores derooftops, terrenos e sites para torres,telecome data centers etc.
Em comum, essas teses envolvem credores pulverizados, vinculados à economia real e com dificuldade de acesso direto ao mercado de capitais. Ao mesmo tempo, esses credores são titulares de créditos contra sacados mais fortes, previsíveis e alinhados aos grandes vetores de expansão do Brasil.
Teses como essas, algumas já em desenvolvimento, permitem transformar fluxos contratuais pulverizados e de difícil acesso em capital útil para a economia real, com vantagens e benefícios para todos os elos da cadeia, dos titulares aos sacados, passando pelas gestoras, fundos e originadores, além do próprio país, já que têm o potencial de canalizar a poupança privada para áreas estratégicas.
Masnão estamos falando apenas de encontrar créditos e antecipá-los com desconto. O maior valor está na capacidade de transformar contratos dispersos em ativos financiáveis.
Usualmente, esses ativos são juridicamente menos padronizados, operacionalmente mais trabalhosos e comercialmente mais fragmentados. Mas é justamente essa assimetria que permite capturar prêmio.
Esses “ativos esquecidos” estão em uma espécie de ponto cego. Não são irrelevantes, mas dispersos; não são arriscados por natureza, mas pouco organizados; não são periféricos, ao contrário, fazem parte da engrenagem econômica que permite que o país avance.
E aqueles que conseguirem enxergá-los, padronizá-los e estruturá-los poderão encontrar uma das próximas grandes fronteiras do crédito privado brasileiro.
Fica, por fim, um ponto para reflexão: o mercado se acostumou a financiar quem procura o ouro debaixo da terra, mas ainda não percebeu o valor daquele que vende a pá.
Mauro da Cruz Jacobé sócio no escritório Gaia SilvaGaedeAdvogados
Robson Augusto da Silva Junioréadvogado no escritório Gaia SilvaGaedeAdvogados
Fonte: Capital Aberto
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