Fundos de recebíveis alcançam R$ 754 bilhões em maio com novos tomadores e investidores

Os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) têm conseguido driblar a aversão ao risco dos investidores no crédito privado e absorver parte da necessidade de capital das companhias brasileiras. Essa indústria chegou a R$ 754 bilhões em maio, aumento de 10% em um ano, na contramão da oferta de títulos de crédito, como debêntures, que está em retração. A projeção no setor é que o volume alcance R$ 1 trilhão dentro dos próximos meses.
No pano de fundo, as possibilidades de captação de recursos pelas empresas têm sido mais restritas em um cenário de volatilidade e companhias alavancadas.
Em um sinal da maior cautela que prevalece no mercado, os fundos de renda fixa registraram saída líquida de R$ 16,3 bilhões em abril, o pior mês para a modalidade, conforme dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em maio, quando a volatilidade diminuiu, esses fundos conseguiram captar R$ 10 bilhões em termos líquidos.
O desempenho dos FIDCs tem sido diferente. Eles têm conseguido navegar nesse cenário adverso e mantêm tendência de crescimento. Em abril, por exemplo, teve a maior captação mensal da indústria, de R$ 4,5 bilhões. Em maio foram mais R$ 2,5 bilhões.
Nos cinco primeiros meses do ano, os FIDCs somaram emissões primárias de R$ 41,7 bilhões, um aumento de 36,5% na comparação com o mesmo período de 2025. As debêntures, por sua vez, totalizaram ofertas de R$ 146,3 bilhões, queda anual de 5,9%.
Na prática, toda empresa que tem valores a receber de clientes pode acessar recursos via FIDCs. Um exemplo comum é o do varejista que vende a prazo. Para receber de forma antecipada, a empresa empacota esses créditos e os vende com desconto a um fundo, que passa a receber os pagamentos dos clientes. No geral, as carteiras são pulverizadas, o que ajuda a mitigar os riscos para o investidor.
Com o amadurecimento do mercado, empresas de diferentes setores têm recorrido aos FIDCs como forma de financiamento. Para isso, usam desde recebíveis de prazos mais curtos, como duplicatas e cartões de crédito, até operações de prazos mais longos, como crédito imobiliário e de veículos.
Crescimento dos FIDCs se deve a uma conjunção de fatores, entre os quais o desenvolvimento do produto”
— Fernando Fontes
O presidente da Cerc, Fernando Fontes, destaca que o crescimento dos fundos de recebíveis se deve a uma conjunção de fatores, entre os quais o desenvolvimento do produto, com ajuda da digitalização, que reduziu custos. Outra característica que atrai as companhias é o tratamento contábil – a depender da estrutura, o FIDC não entra no balanço como endividamento.
O crescimento dos volumes dos FIDCs se mantém forte, tendência que, segundo Fontes, da Cerc, deve continuar.
O presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, Guilherme Maranhão, aponta como atrativo para o investidor a ausência do come-cotas, a cobrança antecipada e obrigatória do Imposto de Renda (IR) sobre fundos. Outra característica do FIDC, segundo ele, é a menor volatilidade, visto que a baixa liquidez não provoca a marcação a mercado nos ativos desses fundos. Do lado das empresas, acrescenta Maranhão, o mecanismo permite exercer um melhor gerenciamento do caixa.
O mercado também tem crescido com dois novos tipos de compradores, segundo Daniel Pegorini, sócio da Valora. Um deles são os bancos, que passaram a adquirir FIDCs diante do baixo consumo da Basileia (medida de capital). Outro, os fundos de crédito, que passaram a experimentar o produto em suas carteiras na pandemia, em busca de mais rentabilidade em um contexto de juros baixíssimos, e hoje têm em vista o controle da volatilidade dos portfólios.
O investidor de varejo, que passou a poder comprar cotas de FIDCs a partir da mudança regulatória feita pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em 2023, ainda se mantém distante de aportes diretos no produto.
João Paulo Fiuza, sócio da One7, afirma que os FIDCs se mantêm em posição privilegiada em um momento em que o cenário para crédito privado se deteriora. Segundo o executivo, mesmo as grandes empresas estão olhando mais o produto diante do mercado mais fechado para captações.
Fonte: Valor Econômico
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