Spreads de crédito penalizam “desvio de rota” de empresas

Para gestores, perda de confiança do investidor levou a ajuste de prêmio de risco A correção nos prêmios de risco, que começou em fevereiro e foi mais forte em março, é fruto das incertezas e da falta de confiança do investidor diante de casos de empresas com dificuldades e processos de recuperação judicial e extrajudicial,…

Para gestores, perda de confiança do investidor levou a ajuste de prêmio de risco

Foto: Gabriel Reis/Valor

A correção nos prêmios de risco, que começou em fevereiro e foi mais forte em março, é fruto das incertezas e da falta de confiança do investidor diante de casos de empresas com dificuldades e processos de recuperação judicial e extrajudicial, agravados pela guerra no Oriente Médio, segundo Alexandre Muller, sócio da JGP Asset Management, e Jean-Pierre Cote Gil, da Vinland Capital.

No entanto, como antes o financiamento às empresas era muito concentrado em bancos públicos, não se observavam ajustes tão rápidos no mercado. Agora, com o mercado de capitais assumindo esse papel, “não há mais tolerância para desvios de rota”, afirmou Muller.

O aumento dos spreads ocorreu porque a incerteza cresceu com esses eventos, minando a confiança e prejudicando o mercado de capitais. Segundo Muller, há uma percepção de retrocesso, influenciada por fatores como o cenário político internacional, insegurança jurídica e episódios de fraude no setor bancário. Ainda assim, ele ressalta que, historicamente, a confiança tende a se restabelecer e os prêmios a se normalizarem.

Para Cote Gil, a atual Lei de Falências cria incentivos ao acionista, e as empresas passaram a utilizar com mais frequência a recuperação extrajudicial. Ele também critica a estrutura de passivo da indústria de crédito privado, hoje concentrada em prazos muito curtos, com fundos oferecendo liquidez imediata, o que força gestores a manter níveis elevados de caixa.

Segundo ele, o prazo médio ideal da indústria seria mais longo, próximo de D+5, mas há dificuldade em implementar estruturas com carência maior de forma relevante no mercado.

A expectativa inicial era de um primeiro semestre mais tranquilo e maior volatilidade no segundo, mas esse cenário se inverteu. O aumento dos spreads é visto como um ajuste técnico seguido por uma reação mais intensa, retroalimentada por fatores externos, incluindo tensões geopolíticas.

Apesar disso, Cote Gil aponta que já há uma correção relevante em alguns segmentos, especialmente em debêntures de infraestrutura, que chegaram a negociar abaixo de títulos públicos comparáveis. A recomendação é de cautela, com necessidade de entender melhor o movimento antes de ampliar alocações.

Os spreads das debêntures incentivadas, que chegaram a níveis abaixo da NTN-B em setembro, subiram ao longo de março. Já as debêntures corporativas encerraram o período com spreads acima do CDI.

Victor Tofolo, responsável pela área de crédito da Bradesco Asset, afirmou que a correção está ocorrendo tanto em papéis incentivados quanto em debêntures corporativas. Segundo ele, começam a surgir mais oportunidades, inclusive em ativos de maior qualidade, embora ainda exijam análise criteriosa.

Ele destaca que o ajuste no segmento de infraestrutura está trazendo a relação risco-retorno para níveis mais adequados, além de aumentar a dispersão entre ativos. Antes, os spreads estavam muito próximos, dificultando a geração de valor pelos gestores.

Cote Gil também observa que mantém posição elevada em caixa, entre 25% e 30%, para aproveitar oportunidades. No entanto, destaca o desafio de lidar simultaneamente com oportunidades de alocação e pedidos de resgate, que tendem a aumentar quando o desempenho dos fundos é impactado por ajustes de preço.

Muller adiantou ainda que o índice Idex, criado pela JGP para acompanhar o mercado de crédito privado, deve refletir em breve essa alta recente dos spreads. Segundo ele, o índice já retornou ao primeiro quartil, indicando recuperação nos retornos dos fundos, inclusive superando o CDI.

Fonte: Valor Econômico

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