Percepção de que os agentes estão menos otimistas com os cortes de juros foi observada nas reuniões entre diretores da autarquia e economistas

A resiliência da atividade econômica do Brasil, a despeito de uma taxa Selic que se mantém no maior nível em quase duas décadas desde meados de 2025, tem levantado questões sobre a extensão do ciclo de flexibilização da política monetária do Banco Central. A percepção de que os agentes estão menos otimistas com os cortes de juros foi observada nas reuniões entre diretores da autarquia e economistas de mercado na manhã desta sexta-feira na sede do BC em São Paulo.
Ainda que o consenso aponte para uma Selic ao redor de 12%, os últimos dados de atividade e do mercado de trabalho têm feito o mercado questionar a possibilidade de um ciclo dessa magnitude. Segundo um dos participantes dos encontros de hoje, fatores como a volatilidade cambial por conta das eleições e do cenário geopolítico “não deixam o ambiente muito seguro para uma desinflação suave ao longo do tempo”.
Além disso, itens que contribuíram para a desinflação em 2025, como a sobreoferta de bens industriais com o “tarifaço” dos Estados Unidos, preços de alimentos em queda e a própria valorização do real sobre o dólar não devem ajudar tanto neste ano.
“Por isso, mesmo aqueles que projetam uma queda da Selic para a casa dos 12% — alguns até um pouco abaixo disso — se questionam se, de fato, faria sentido a taxa cair para esses níveis, dado que tem muita incerteza no radar e o ambiente de desinflação não está 100% assegurado”, diz esta fonte, em condição de anonimato.
Um outro participante das reuniões corrobora a visão ao afirmar que os economistas se mostraram mais céticos quanto à possibilidade da Selic ser reduzida em 3 pontos percentuais até o fim do ano. Segundo ambas as fontes, as projeções para o IPCA deste ano ficaram em torno de 4%, com algumas pessoas projetando o índice um pouco abaixo e outras, um pouco acima desse nível. Já para o PIB de 2026, a expectativa é de um crescimento perto de 1,5%, entre quem espera uma desaceleração maior, e de 2% entre quem vê uma economia mais resiliente.
“A leitura que predominou é de que, talvez, os dados que vimos mais fracos no ano passado não tenham sido uma tendência, e o mercado de trabalho está mostrando isso bem”, diz o profissional. Segundo ele, o consenso ainda aponta para um primeiro corte da Selic em março, mas não houve comentários acerca da sua magnitude, de 0,25 ou 0,5 ponto percentual.
Sobre o quadro externo, uma das fontes conta que a expectativa majoritária é por um ambiente favorável à inflação, com um dólar ainda enfraquecido e o petróleo comportado ao redor dos níveis atuais. De qualquer forma, se houver uma apreciação do real, a visão geral é de que o processo deve ser mais contido em 2026 na comparação com o ano passado.
Fonte: Valor Econômico
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