Gestora traz Paulo Fleury para comandar vertical, que inicia com fundo de R$500 milhões voltando a crédito estruturado no agro, priorizando garantia robustas e operações seletivas, em um ambiente de maior aversão ao risco e escassez de capital

Meio bilhão de reais para dar passos mais largos no agronegócio. Depois de encarteirar papéis high grade em alguns fundos da casa e estruturar um veículo para abrigar créditos estressados da Agrogalaxy com outras gestoras, JiveMauá lançou seu primeiro fundo dedicado ao agronegócio.
A empresa, que possui R$ 25 bilhões em ativos sob gestão, está em busca de R$ 500 milhões para seu primeiro Fiagro. Batizado de JMAG (JiveMauá Agronegócio Fiagro), o veículo irá encarteirar operações de crédito (FIDCs, CRAs e CPRs), além de operações de terras e debêntures em diversos segmentos e culturas do setor.
Desde revendas, passando por produtores rurais, setor sucroenergético, máquinas agrícolas, fertilizantes, distribuidores e até indústrias alimentícias, que faturem, no mínimo, R$ 150 milhões por ano. A oferta é coordenada pela XP. A iniciativa também marca a primeira tacada de Paulo Fleury na casa.
Executivo com larga experiência no mercado de crédito no agro, Fleury acumula passagens por gestoras com forte atuação no setor, como a eB Capital, onde estava anteriormente, Valora e FG/A. Na JiveMauá desde o final de 2025, ele cita que já conversava com os sócios há algum tempo e que veio para pegar a estrutura da Jive para capitanear a vertical e entrar forte no setor.
“O projeto na última firma era muito parecido. A questão é que o agro deu essa barrigada que todos acompanharam nos últimos anos e ficou difícil montar projetos e captar. Nisso, fiquei fazendo outros produtos, mas meu DNA sempre foi fazer crédito agro. A Jive tinha intenção de entrar no setor e fez todo o sentido, dado o tamanho da gestora, querer crescer nessa vertical”, contou o gestor do portfólio agro da JiveMauá, Paulo Fleury.
A ideia do veículo é, segundo Fleury, fazer um meio do caminho entre o DI mais 10% e o DI mais 1%, se referindo a operações de créditos estressados, no qual o retorno é maior pelo risco proporcionalmente elevado, e de operações com empresas consolidadas e bilionárias, onde a relação risco retorno segue o ritmo oposto.
Dessa forma, a meta da JiveMauá com o JMAG é entregar um retorno prefixado de 15% para as cotas seniores, ou cerca de CDI mais 5,4%.
Na estrutura do veículo, a Jive entra como cotista subordinada com 15% do capital total, colocando R$ 75 milhões para absorver os custos da estrutura, administração, distribuição, assessoria jurídica, CVM, Anbima, e eventuais primeiras perdas antes de qualquer impacto para o cotista sênior.
Segundo o gestor, a estrutura serve para trazer mais proteção para o investidor em um momento em que a aversão ao risco marca o setor. O fundo terá remuneração mensal de juros e duração de seis anos, com amortizações mais relevantes feitas nos últimos dois.
Apesar de um pipeline diversificado e focado em boas operações, Fleury cita que hoje está mais suscetível a operações que envolvem produtores rurais. Vai variar de momento para momento. Já houve épocas no agro que eu estava mais ligado ao setor sucro do que ao produtor de grãos. Hoje, vejo que as margens estão apertadas, mas o produtor rural ainda é a base de tudo, disse.
Em relação ao setor sucroenergético, cita que as usinas estão tentando captar com a foto do balanço, mas que o futuro indica um preço de açúcar pressionando a rentabilidade daqui para frente.
Tudo vai depender das garantias, uma terra, um FIDC no qual a empresa entra como garantidor na cota subordinada, um sale and leaseback, onde a gestora compra a terra e arrenda para o mesmo produtor que vendeu, ou cessão de um recebível, por exemplo.
A expectativa é captar os recursos até o final do mês e alocar os recursos em até dois meses. A meta é fazer operações com cheques entre R$ 30 e R$ 40 milhões, segundo Fleury.
O foco da gestora é colocar o fundo para rodar, mas o gestor não descarta outras iniciativas caso o sucesso do JMAG se concretize. Fundos listados e até mesmo fundos distressed focados no agro podem ocorrer no futuro, ele diz.
A foto do momento e o freio de arrumação
A aposta da JiveMauá no agro ocorre em um momento ambíguo. De um lado, a escalada das recuperações judiciais no setor parece não ter hora para acabar, mas de outro, algumas outras casas voltaram a captar em novos fundos ou em follow-ons em outros já existentes.
Fleury considera que o setor de Fiagros vive um momento de freio de arrumação por se tratar de uma indústria recente.
“A fatura chega num setor cíclico, e acho que toda indústria nova tem freio de arrumação. Aconteceu isso com os fundos imobiliários lá atrás e agora ocorre com o agro, e no final, é até saudável para separar as coisas”, disse.
Ao mesmo tempo que olha o copo meio cheio, o gestor evita tapar o sol com a peneira. A guerra no Oriente Médio bagunçou ainda mais as percepções sobre os próximos meses no agro, segundo ele.
Apesar disso, vê que os problemas que aconteceram até agora foram contratados, ou seja, não foram grandes surpresas para quem já vive o segmento há alguns anos.
Esse novo momento passa, portanto, por um adeus à euforia vista no início do mercado de Fiagros. A chamada indústria das recuperações judiciais, em que alguns escritórios de advocacia pressionavam produtores a pedir recuperação judicial mesmo sem nenhum tipo de conversa com credores, parece ter perdido força. Segundo ele, muitos casos até passavam numa primeira instância jurídica, mas na segunda, não.
“Hoje dificilmente fechamos uma operação com alguém que quer investir muito, abrir novas terras, construir novas fábricas. A conversa básica parte do pressuposto de qual retorno ele enxerga para tomar crédito com um juros de 20% ao ano”, prosseguiu Fleury.
“A grande maioria, que não quebrou, entendeu que não era hora de loucura. É momento de tocar a bola de lado e pagar os credores. Isso em um setor que está indo para outra safra recorde. Meu trabalho é transformar isso em boas operações de crédito”, afirmou.
A ideia é mostrar que, num momento em que o crédito tradicional bancário fechou a torneira, uma casa como a JiveMauá se apresenta como solução para alongar as dívidas de um produtor mais bem posicionado, desde que traga boas garantias.
“O principal insumo dessa safra é o dinheiro, que está escasso.”
Fonte: AG Feed
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