Classe de ativos está inserida em uma mudança estrutural do país, em que o crédito está migrando do ambiente bancário para o mercado de capitais
Os dados da Anbima têm apontado um crescimento sustentado dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) nos últimos anos. Em 2025, os FIDCs contribuíram com R$ 57,6 bilhões dos R$ 88,4 bilhões de captação líquida da indústria de fundos. Já o número de investidores em FIDCs cresceu de 172,2 mil em 2024 para 331,4 mil no fim de 2025.
Embora haja participação significativa de pessoas físicas, family offices, gestores e tesourarias de bancos, os fundos de pensão ainda demonstram exposição limitada aos FIDCs. No fim de 2025, as fundações tinham R$ 2,27 bilhões alocados em FIDCs, algo como 0,3% da indústria de FIDCs e longe dos quase R$ 40 bilhões detidos pelos investidores do varejo de alta renda e tradicional somados. Ao nosso ver, é um indicativo de um potencial considerável a ser explorado por esse público.
Tendo em mente que estamos falando de estruturas de prazo mais longo, com performance de crédito consistente, vale lembrar que a própria CVM se mostrou confortável para disponibilizar os FIDCs para os investidores de varejo na ICVM 175, e que usualmente proporcionam ganhos reais relevantes para os investidores, nos parece importante questionar: afinal, a que podemos atribuir essa aparente hesitação dos fundos de pensão com relação aos FIDCs?
Primeiramente, e de maneira mais óbvia, precisamos reconhecer o conforto proporcionado por ativos tradicionais de renda fixa, como as NTNBs, cujo alto retorno muitas vezes supera as metas atuariais das entidades. No entanto, essa precificação elevada não é perene. Importante se atentar para o risco da acomodação desincentivar a busca por sofisticações de diversificação na carteira, algo fundamental quando pensamos no objetivo precípuo das fundações, que é gerar retorno real de longo prazo, principalmente no momento que as NTNBs não atenderem à necessidade.
Alguns gestores de fundações com os quais conversamos também nos relataram o problema da limitação do corpo técnico e a falta de especialização. As equipes de investimento dos fundos de pensão são frequentemente enxutas e podem não ter a formação necessária para avaliar instrumentos de securitização, como os FIDCs. É desafiador, mas não deveria ser suficiente para afastar uma fundação dos FIDCs.
Em mandatos exclusivos com fundações, por exemplo, é possível prever um serviço de transmissão de conhecimento, com discussões em comitês consultivos, compartilhamento de material de análise ou reuniões periódicas de monitoramento.
Outro desafio é a complexidade de se analisar um grande volume de ofertas de FIDCs, dadas todas as classes de ativos que as equipes de investimento precisariam acompanhar. Investir diretamente em FIDC, de fato, exige uma especialização dos profissionais, que devem trabalhar com o instrumento no dia a dia, apoiados por equipes qualificadas e ferramentas proprietárias de análise, monitoramento e gestão.
Para endereçar esse ponto e facilitar a montagem de uma carteira diversificada de FIDCs, existem os FICs (Fundos de Investimento em Cotas) de FIDCs, que incluem ativos selecionados por gestores especialistas no tema e de diferentes ativos lastros, de modo a pulverizar riscos e aprimorar o retorno potencial da carteira.
Além dos atributos próprios dos FIDCs, se uma fundação optar por contratar um gestor para um veículo exclusivo poderá alcançar benefícios adicionais, como alinhar a política de investimento do fundo com a sua própria política.
Os números da Anbima dos últimos cinco anos mostram uma evolução constante e relevante do patrimônio dos FIDCs. Com crescente sofisticação dos investidores e prestadores de serviços, maior conhecimento do instrumento pelos tomadores de recursos, uma agenda regulatória que tende a ampliar a segurança da categoria, o avanço das tecnologias usadas pelos gestores e um histórico de entregas consistente, esta classe de ativos está inserida em uma mudança estrutural do país, em que o crédito está migrando do ambiente bancário para o mercado de capitais.
Entendemos que a tendência de crescimento dos FIDCs está assegurada nos próximos anos, financiando a demanda por crédito da economia real. Por essa razão, parece mandatório que os fundos de pensão intensifiquem suas discussões sobre a importância de diversificar suas carteiras e considerem, em especial, os FIC de FIDCs como uma alternativa estratégica para o longo prazo, aproveitando os atributos de prêmio de retorno, governança e baixa volatilidade desses instrumentos.
Fonte: Valor Econômico
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