Pagamento de CDBs do Master pelo FGC traz liquidez extra ‘fora de época’ ao mercado

Assessorias que fazem o relacionamento diretamente com o cliente estão em campanha para reter os recursos, mas é muito dinheiro numa tirada só para absorver Os mais de R$ 40 bilhões que começam a ser desembolsados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para ressarcir investidores de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do Banco Master, após…

Assessorias que fazem o relacionamento diretamente com o cliente estão em campanha para reter os recursos, mas é muito dinheiro numa tirada só para absorver

Fachada da sede do Banco Master, em São Paulo — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg

Os mais de R$ 40 bilhões que começam a ser desembolsados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para ressarcir investidores de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do Banco Master, após a liquidação extrajudicial da instituição, trouxeram uma liquidez extra e fora de época para o mercado de investimentos. Assessorias que fazem o relacionamento diretamente com o cliente estão em campanha para reter esses recursos, mas é muito dinheiro numa tirada só para absorver de uma vez.

“É muita liquidez em espaço curto de tempo e sem lastros”, diz Samy Botsman, sócio-diretor da Fami Capital. “Deve ir parte para o Tesouro Direto, parte para fundos, o mercado não tem R$ 40 bilhões [em ativos] para realocar.”

O executivo acrescenta que uma quebra de banco diminui muito a confiança do investidor e que instituições de médio e pequeno porte tendem a ter mais dificuldade para captar recursos. As taxas dos bons emissores, por sua vez, vão se reduzir, com a rentabilidade do investidor ficando mais apertada.

Antes mesmo de o dinheiro ser liberado, já houve um trabalho das assessorias e das principais plataformas para que, no cadastro de recebimento dos recursos do FGC, os investidores elegíveis colocassem as contas das instituições com as quais têm relacionamento.

Para Fernando Katsonis, sócio e principal executivo (CEO) da Lifetime, que é conectada à rede do BTG Pactual, trata-se de um “excesso de liquidez importante” e algumas instituições podem deixar escapar parte dos recursos no regresso desse dinheiro. “A XP tinha um volume muito maior [em CDBs do Master] do que outras, e, obviamente é a que perde mais recursos na volta. Todo mundo está em campanha de produtos para trazer mais recursos. Nossa missão é trazer o dobro do que tínhamos.”

A XP é a maior distribuidora de títulos de bancos de pequeno e médio porte e detinha cerca de 70% dos ativos emitidos pelo Master e pela Will Financeira, que não foi liquidada, com mais de R$ 30 bilhões no todo. O BTG Pactual tinha R$ 6,7 bilhões. O Nubank também acabou colocando papéis do Master na sua prateleira, com quase R$ 3 bilhões no estoque.

Katsonis diz que tanto BTG quanto XP têm oferecido alternativas de curto prazo, inclusive CDBs, porque o mercado está mais escasso de ofertas neste início de ano. “Há a operação da Claro [de R$ 3 bilhões em debêntures], renda fixa no secundário ou título público”, cita. “De fato, o cliente, depois de uma experiência ruim com CDBs, não deve entrar em papéis que não sejam de primeira linha. O cliente quer o CDB de primeira linha de ‘bancão’ ou título público.”

André Albo, sócio-fundador da Alta Vista Investimentos, também vê um excesso de liquidez no mercado num intervalo curto de tempo. “Não vai haver produto suficiente para tanto dinheiro. Então nossa recomendação é deixar em renda fixa com liquidez para alocar de forma tranquila nas próximas semanas”, diz. Ele acrescenta que a renda fixa isenta, investimentos internacionais e ofertas públicas de títulos de dívida ou fundos de crédito privado tendem a ser o destino.

Alguns investidores até podem topar novos CDBs, mas com as taxas no chão, esse não deve ser o caminho mais óbvio, diz Albo. “Os bancos [médios] captaram muito nos últimos tempos. Então, como não tem aquela fome de captação, baixam as taxas.”

Guilherme Mendes, chefe de renda fixa da Blue3 Investimentos, da rede XP, diz que os CDBs do Master caíram nas graças dos investidores porque tinham uma combinação de taxas muito atrativas com o respaldo da cobertura do FGC, “o que lá atrás soava com uma relação risco/retorno adequada” Agora, com a liberação da garantia, o mercado está diante de uma “movimentação financeira extremamente relevante e concentrada que deve se intensificar ao longo das próximas semanas”.

O executivo acrescenta que o evento Master “acende uma luz que deixa claro que más alocações, mesmo quando amparadas por possíveis garantias, elas podem e vão gerar desconforto, ruído e decisões reativas do que não é ou não deveria ser adequado no momento da construção de um portfólio”, alerta Mendes. “O nosso papel é evitar que esse tipo de situação volte a acontecer.”

Agora vale repensar a carteira de acordo com o perfil e objetivos de cada cliente. As necessidades de liquidez, tolerância a risco e o prazo entram nesse diagnóstico para direcionar os recursos com critério e responsabilidade, continua o executivo da Blue3. Isso quer dizer que não há uma recomendação única de realocação, ou ativo “miraculoso” para o qual esse recurso deveria ir. “Cada carteira tem a sua complexidade e o racional de investimento é tratado no micro, no relacionamento entre o assessor e o cliente, respeitando a individualidade de cada portfólio e de seus objetivos.”

Olhando para o cenário macroeconômico e as diretrizes do mercado para 2026, ele avalia que esses recursos devem permanecer na renda fixa. “Há uma ancoragem com uma forte expectativa de corte de juros ao longo do ciclo”, diz Mendes. “Tende a ser um ano em que o retorno no Brasil venha muito mais da reprecificação dos ativos, do custo do dinheiro, do que de qualquer outra variável interna ou externa.” A seu ver, vale assumir que ativos indexados à inflação e prefixados vão ganhar protagonismo com os juros reais em patamares historicamente elevados.

Na Miura Investimentos, assessoria da rede do BTG, o apetite é para a renda fixa, segundo Diego Ramiro, sócio-fundador da companhia, “aproveitando que a Selic está alta e a curva [de juros] vai fechar [cair]”. Título públicos, produtos bancários e créditos privados com rating AAA são as preferências, lista. “Estamos orientando a aplicar o quanto antes, pois, quando liberar o dinheiro, a demanda estará muito alta e as taxas vão fechar. São R$ 40 bi que entrarão no mercado e não tem produto para tudo isso.”

Fonte: Valor Econômico

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