Segundo executiva, instituições financeiras não bancárias conseguem ganhar espaço por operarem com estruturas tecnológicas mais ágeis e menores exigências regulatórias

As instituições financeiras não bancárias (NBFIs, na sigla em inglês) vêm ganhando espaço em segmentos tradicionalmente dominados pelos bancos de atacado, como crédito, tesouraria e câmbio, e obrigam as instituições tradicionais a acelerar a transformação tecnológica para sustentar o crescimento. É o que mostra o estudo “World Corporate and Investment Banking Report 2026″, da Capgemini.
Segundo a pesquisa, o crescimento anual composto (CAGR) das receitas globais de banco corporativo e de investimento (CIB, na sigla em ingês) deve desacelerar de 6,5% entre 2022 e 2024 para 5,4% entre 2025 e Nas Américas, a expansão esperada cai de 7% para 6% no período. A receita de CIB dos 18 maiores bancos representa entre 65% e 70% do total do segmento de atacado, mas perde ritmo diante da maior competição e do aumento dos custos operacionais.
“Quando a gente olha para o mercado brasileiro, ele é muito parecido. […] A gente enxerga que o mercado brasileiro segue a mesma tendência no mercado global e no mercado das Américas, que é uma tendência de crescer menos”, avaliou a executiva de indústria financeira da Capgemini Brasil, Ana Lozano Pozza.
Segundo ela, a desaceleração não decorre de uma maturidade do mercado, mas da necessidade de os bancos conciliarem investimentos em tecnologia com exigências regulatórias cada vez maiores e o avanço de novos concorrentes. “Você cresce receita, mas você cresce custo. Então, você vem desacelerando isso ano após ano”, disse.
Na avaliação da executiva, as instituições financeiras não bancárias conseguem ganhar espaço por operarem com estruturas tecnológicas mais ágeis e menores exigências regulatórias, especialmente em operações de crédito e pagamentos corporativos. “Eles carregam uma necessidade de regulatórios muito maior do que essas ‘non-banks’”, afirmou, ao comparar os bancos tradicionais com as NBFIs.
O estudo mostra que apenas 20% dos clientes corporativos afirmam estar satisfeitos com os serviços prestados pelos bancos e somente 23% consideram que suas instituições atendem efetivamente às suas necessidades. Ao mesmo tempo, 85% já utilizam ou pretendem utilizar instituições financeiras não bancárias nos próximos 12 meses.
Para Pozza, os bancos já perceberam essa mudança de comportamento. “Eles precisam se reinventar. Muitos deles estão se reinventando. […] Quando eles conseguem atingir um nível de tecnologia que atende as expectativas dos clientes, os clientes optam pelos bancos, pela credibilidade que eles têm e pela capacidade também financeira de empréstimos, transacionais e uma série de coisas.”
Segundo a pesquisa, as NBFIs vêm ampliando participação em diferentes frentes. No crédito privado, 70% dessas instituições apontam essa atividade entre seus principais motores de receita. Já na tesouraria, 58% das empresas afirmam utilizar plataformas de fintechs para funções essenciais, e a expectativa é que as NBFIs devem responder por 30% do volume global de negociações até 2030.
Na avaliação da executiva, o diferencial competitivo dessas empresas está menos em tecnologias específicas, como stablecoins, e mais na arquitetura dos sistemas. “A infraestrutura básica deles que é diferente. […] Elas conseguem ter através de APIs essas conexões muito mais práticas e muito mais rápidas. Então, elas têm uma capacidade sistêmica de processamento muito mais rápida.”
Pozza afirma que isso permite respostas quase em tempo real em operações de crédito, pagamentos e comércio exterior, áreas em que grandes empresas demandam velocidade para movimentar recursos.
Além da tecnologia, a executiva destaca que os bancos tradicionais precisam melhorar a experiência oferecida aos clientes corporativos. O relatório mostra que 62% dos clientes esperam interações digitais sem atritos, 58% querem respostas em tempo real, 48% esperam integração direta entre plataformas bancárias e seus sistemas corporativos e 45% cobram maior transparência na precificação dos serviços. “Essa jornada também precisa ser mais fluida.”
Na visão da executiva, o principal obstáculo para os grandes bancos continua sendo o custo da conformidade regulatória. Segundo a pesquisa, 61% dos executivos do setor apontam as despesas com compliance como um dos principais desafios para o desempenho dos negócios. “Os grandes aspectos que os bancões sofrem bastante são gastos operacionais para cumprir conformidade.”
Ela explica que as instituições precisam cumprir exigências rigorosas de conhecimento do cliente (KYC, na sigla em inglês), prevenção à lavagem de dinheiro (AML, na sigla em inglês), monitoramento de sanções internacionais e reporte de operações suspeitas, o que exige integração entre diversos sistemas e aumenta a complexidade operacional.
Apesar desse cenário, Pozza acredita que a inteligência artificial tende a reduzir parte dessas dificuldades. “Nada que ele não consiga se adequar ao longo do tempo. […] É muito natural que ele consiga ter tecnologia através de inteligência artificial hoje.”
Segundo ela, embora a pesquisa não identifique quais instituições vêm ganhando espaço no Brasil, a tendência também já é percebida no mercado brasileiro. “Esse movimento também está sendo observado aqui”, afirmou. “Vou te dar um cenário: imagina que você precisa de um crédito, você como uma grande corporação. […] Quando você olha para uma SCD, por exemplo, ela não tem obrigações regulatórias altíssimas para poder fazer esse empréstimo. Ela toma mais riscos e, automaticamente, tomando mais riscos ela consegue dar um crédito mais rápido, embora o crédito dela seja mais caro.”
Fonte: Valor Econômico
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