Enquanto os fundos multimercados enfrentaram forte onda de resgates em maio, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) seguiram na contramão do mercado, registrando saldo positivo de R$ 2,5 bilhões no mês e acumulando R$ 21,5 bilhões em captação líquida no ano.
Sobre a dinâmica por trás desse movimento e os riscos que o acompanham, Fernanda Rocha, assessora de investimentos da Monte Bravo e Notável do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, detalhou como funcionam esses ativos e os cuidados que todo investidor deveria ter antes de alocar capital nessa modalidade.
Segundo a assessora, um dos principais equívocos do investidor é enxergar o FIDC como se fosse um produto de renda fixa tradicional.
Na prática, trata-se de um direito sobre recebíveis futuros — como boletos, mensalidades ou parcelas de cartão de crédito — que empresas negociam para antecipar caixa. Ao investir em um FIDC, o cotista está, na verdade, comprando esse recebível e assumindo o risco embutido nele.
“Então, quanto maior for o risco de não receber, ou o risco de demorar para receber, maior vai ser esse retorno”, afirma.
Fernanda Rocha explica ainda que o mercado de FIDCs carrega uma particularidade importante. Embora órgãos reguladores como CVM e Anbima fiscalizem a estrutura formal desses fundos, eles não verificam a veracidade dos recebíveis que compõem a carteira.
Essa característica torna essencial entender a divisão de cotas dentro de um FIDC, que normalmente se organiza em pelo menos duas camadas, a subordinada, de maior risco, que absorve primeiro eventuais perdas, e a sênior, mais protegida. Em fundos maiores, pode existir ainda uma camada intermediária, a mezanino.
“A subordinada vai ser o airbag. Ela que vai aguentar todo o impacto que vai ter em qualquer tipo de falta de pagamento nesses recebíveis”, explica.
Para a Notável, quanto menor essa fatia, mais rapidamente o impacto de uma inadimplência pode atingir os cotistas seniores. Um sinal de confiança relevante, segundo ela, é observar se o próprio gestor do fundo investe recursos próprios na cota subordinada.
Fernanda Rocha também abordou episódios recentes de fraude no mercado financeiro, mencionando como recebíveis podem ser fabricados ou apresentados de forma distorcida.
“O primeiro de tudo é entender se esse gestor, esse administrador e esse custo adiante são figuras diferentes. Todos os FIDCs que tiveram problemas, acabavam criando um conflito de interesse”, diz.
Sobre o forte apetite recente por FIDCs, Fernanda Rocha aponta um contraste entre os fundos multimercados terem registrado altos resgates e o investidor ter se mostrado cada vez mais incomodado com a volatilidade das cotas em um cenário de Selic elevada, atualmente em 14,25% ao ano.
Para a especialista, parte da atratividade dos FIDCs vem justamente da ausência de marcação a mercado, o que evita a percepção de perdas ao longo do caminho — um fator que, segundo ela, também influencia os assessores a recomendarem o produto, já que mantém o investidor psicologicamente.
Fonte: Times Brasil
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