Durante décadas, a indústria financeira operou sob uma convicção simples: quanto mais informações disponíveis sobre um cliente, melhor seria a decisão de crédito. Poucas transformações recentes reforçaram tanto essa percepção quanto o avanço do Open Finance.
A possibilidade de acessar históricos financeiros mais completos, ampliar a visibilidade sobre empresas e consumidores e incorporar novas fontes de informação aos modelos de análise criou a expectativa de um mercado mais eficiente e menos dependente das assimetrias que historicamente marcaram a concessão de crédito. Em grande medida, essa expectativa se confirmou.
As instituições financeiras passaram a contar com uma capacidade de análise sem precedentes. Segundo a Febraban, o Brasil já é considerado o maior ecossistema de Open Finance do mundo, tanto em escopo de dados quanto em volume de chamadas realizadas entre instituições financeiras. Em quatro anos de operação, o sistema ultrapassou 62 milhões de consentimentos ativos e registra mais de 2,3 bilhões de comunicações bem-sucedidas por semana entre instituições.
Mas uma consequência menos evidente começa a surgir. À medida que o mercado resolve o problema da escassez de dados, passa a enfrentar um novo desafio: o excesso de dados disponíveis.
A questão parece contraditória. Durante anos, a falta de informação foi apontada como uma das principais barreiras para o desenvolvimento do crédito, especialmente para pequenas e médias empresas. Hoje, porém, a dificuldade já não está necessariamente em acessar dados, mas em determinar quais deles efetivamente contribuem para prever risco, capacidade de pagamento e potencial de crescimento.
Esse ponto tende a se tornar central na próxima fase do mercado de crédito. Nem todos os dados possuem o mesmo valor, nem todos os indicadores carregam a mesma capacidade preditiva e nem toda informação disponível melhora a qualidade de uma decisão. Em um ambiente cada vez mais digitalizado, volume e relevância não são sinônimos.
Durante muito tempo, o diferencial competitivo esteve associado à capacidade de obter informações que os concorrentes não possuíam. A democratização do acesso aos dados altera essa lógica. Se todos têm acesso a volumes crescentes de informação, a vantagem deixa de estar na coleta e passa a estar na interpretação.
Essa mudança desloca o foco da inovação financeira. Com o acesso à informação cada vez mais disseminado, o diferencial passa a estar na qualidade da leitura que cada instituição é capaz de fazer desses dados, na governança dos modelos utilizados e na capacidade de transformar sinais dispersos em contexto para a tomada de decisão. É nesse ponto que a inteligência aplicada aos dados ganha importância, especialmente para separar sinal de ruído, identificar relações relevantes e compreender os limites dos modelos utilizados.
O crédito sempre foi uma atividade baseada na redução de incertezas. O que muda agora é a natureza dessa incerteza: se antes o desafio era decidir com poucas informações, agora passa a ser decidir em meio a uma quantidade praticamente ilimitada delas. Nesse novo contexto, ter acesso a mais dados não garante necessariamente decisões melhores. Transformar essa abundância em inteligência será o verdadeiro diferencial competitivo.
Fonte: Investing
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