Criado antes mesmo da existência dos Fiagros e atravessando pandemia, guerras, boom do agro e crise de crédito, o primeiro FIDC da gestora focado em crédito agro chegou a R$ 250 milhões em patrimônio, investiu em 16 operações e encerra agora seu ciclo sem perdas para investidores

A Selic saiu de 2% para 15%. A saca de soja flutuou entre R$ 100 e quase R$ 200. Uma pandemia, uma guerra na Ucrânia e outra no Oriente Médio, um El Niño, uma La Niña, uma troca de governo e uma explosão de recuperações judiciais no agronegócio.
Essa montanha-russa vivida de 2020 até 2026 ainda foi marcada por uma incursão nunca antes vista da Faria Lima no agronegócio, com os Fiagros, gestoras atuando no setor e também uma crise de crédito sem precedentes nesse mercado.
Foi justamente nesse ambiente de extremos que nasceu e se encerra agora um fundo que ajuda a contar essa história recente do crédito privado no agro brasileiro.
A gestora paulista Éxes acaba de liquidar seu primeiro fundo dedicado ao agronegócio, o Xingu. Criado em 2020, antes mesmo da existência dos Fiagros, o FIDC chegou a administrar cerca de R$ 250 milhões em patrimônio líquido (PL) antes de iniciar os desinvestimentos e terminou sua trajetória sem registrar perdas para investidores, apesar de uma sequência de eventos que exigiu renegociações, reestruturações e até ameaças de execução de garantias.
“Foi um fundo que começou quando o agro ainda não era pop, virou pop e agora vive de novo um momento de um certo ‘terror’. E, mesmo assim, entregou um resultado exuberante”, disse ao AgFeed Artur Carneiro, sócio-fundador da Éxes.
Ao longo de sua existência, o Xingu investiu em cerca de 16 operações entre CRAs e CPRs, concentradas em produtores de soja, milho e algodão, e o resultado final chama atenção.
Segundo a Éxes, a cota sênior do fundo entregou retorno equivalente a CDI mais 4% ao ano (cerca de 120% no acumulado), enquanto a cota subordinada gerou desempenho próximo de CDI mais 20% ao ano, o equivalente a mais de 400% de retorno no acumulado ao longo de seis anos. No mesmo intervalo, o retorno de alguém que investiu no CDI ronda os 80% no acumulado.
Em conversa com a reportagem, Carneiro citou alguns motivos nos quais ele acredita que foram fundamentais para o resultado. De cara, um elemento se destaca desde as primeiras operações: um “excesso” de garantias.
A preocupação fazia sentido, já que o fundo começou a ser desenhado justamente durante os primeiros meses da pandemia. A Éxes havia recebido autorização para atuar como gestora ao final de 2019 e começou a estruturar alguns veículos no início de 2020.
A ideia inicial, segundo contou Carneiro, era lançar um fundo multimercado dedicado a operações de crédito direto, estratégia ainda pouco difundida no Brasil naquele momento. A tese, porém, foi atropelada pelo avanço da Covid-19.
“Estávamos captando muito bem e, de repente, veio a pandemia. O pipeline de operações foi para o ralo. Não havia coragem para investir em vários projetos e ainda existia a dificuldade de locomoção para originar novos negócios”, afirmou Carneiro.
A solução foi reduzir o universo de atuação e a Éxes buscou um setor cuja demanda permanecesse resiliente mesmo em meio ao lockdown e que, ao mesmo tempo, oferecesse garantias robustas caso o cenário piorasse ainda mais. O agro apareceu como resposta.
“Preso em casa ou no escritório, as pessoas continuavam precisando de alimentação. A logística do setor também funcionava relativamente bem. E outra coisa fundamental era um volume de garantias importante”, continuou.
O foco acabou recaindo sobre produtores de grãos. Segundo Carneiro, diferentemente de outros segmentos do agro, como o de açúcar e etanol, velhos conhecidos dos bancos e também do mercado de capitais já há mais tempo, os agricultores de grãos já estavam habituados a oferecer terras como garantia das operações e ainda aceitavam pagar spreads elevados, algo especialmente atrativo em um ambiente de juros básicos de apenas 2% ao ano.
O desenho do produto também era bastante diferente do que se tornaria comum anos depois. O Xingu nasceu como um FIDC “cetipado”, numa época em que os Fiagros sequer existiam e o mercado de capitais ainda tinha pouca familiaridade com operações de crédito pulverizadas no agronegócio.
“Na época, FIDC era quase um palavrão. O mercado olhava para essas operações e muitas vezes nem entendia direito o que era.”
Com um mandato definido, financiar produtores de soja, milho e algodão, com foco em soja e forte base de garantias reais, a gestora conseguiu ampliar a captação e construir um portfólio que, ao longo dos anos seguintes, atravessaria alguns dos períodos mais turbulentos da história recente do agro.
Quem vê o desempenho final pode imaginar um verdadeiro “céu de brigadeiro”, segundo o próprio sócio-fundador. Mas não foi bem assim.
“Pelo resultado, parece que foi tudo muito simples. Não foi. Houve muito trabalho de gestão.”
Embora o fundo não tenha registrado perdas, a gestora admite que enfrentou praticamente todo tipo de situação de estresse.
Houve produtores que deixaram de honrar parcelas temporariamente, operações que precisaram ser completamente redesenhadas, negociações envolvendo múltiplos credores e até situações em que a execução de garantias chegou a ser considerada.
Ele cita um caso, por exemplo, em que um produtor mais alavancado acabou comprando diversas propriedades financiadas por diferentes credores.
“Chamamos todo mundo para a mesa. Alguns reassumiram terras, redesenhamos a estrutura e conseguimos fazer com que a operação atravessasse o problema”, disse.
Em outra situação, a execução de uma fazenda em Rio Verde (GO) chegou a ser preparada. Segundo Carneiro, diante da possibilidade concreta de perder uma propriedade considerada altamente líquida, o produtor optou por vender parte das terras e liquidar a dívida antes da consolidação das garantias.
“A gente acredita menos em default e mais em loss given default (o percentual da dívida que o credor efetivamente perde caso o tomador dê um calote). Aqui não perdemos dinheiro. Na maioria das vezes, inclusive, ganhamos mais por conta de multas e taxas de pré-pagamento”, contou.
Para Carneiro, o principal aprendizado deixado pelo Xingu é justamente que o crédito agro exige uma gestão ativa e que o verdadeiro trabalho começa justamente quando as operações entram em estresse.
“Existe uma ideia de que basta comprar um CRA e carregar até o vencimento. Não é assim. Quando as coisas saem do piloto automático, alguém precisa sentar na mesa e resolver o problema”, acrescentou.
Depois do Xingu
O encerramento do fundo acontece em um momento em que a indústria de Fiagros volta a captar, ainda mais devagar, mas retomando um movimento que foi deixado de lado entre 2024 e 2025. Além do Xingu, Carneiro cita que hoje a casa possui dois fundos de agro vigentes: o Carajá e o Araguaia.
O primeiro é um FIDC fechado com R$ 80 milhões de patrimônio líquido, distribuído em CRAs, CPRs, cotas de outros fundos e mais diversificado em setores: soja, indústria de fertilizantes, químicos, açúcar e etanol, setor florestal, pecuária e milho.
Já o Araguaia é listado e negociado em Bolsa pelo ticker AGRX11 e hoje tem cada cota negociada próxima de R$ 8,30. Com mais de R$ 180 milhões em PL, o fundo tem uma estrutura mais similar ao Carajá, mas possui concentração na exposição a CRAs, 80% do Fiagro, e em operações de soja, 30% na divisão por setores.
Segundo Carneiro, o fundo opera com desconto desde o episódio da recuperação judicial da Agrogalaxy, que derrubou cotas de todo o mercado e, em especial, aqueles Fiagros com CRAs da rede de revendas da companhia encarteirados, caso do Araguaia.
“O episódio machucou a cota e ela não voltou a ficar próxima do valor patrimonial. Ele tem um mega desconto em bolsa, mas nós trabalhamos há tempos para criar gordura e aguentar solavancos, além das marcações que fazem parte do mercado”, disse o sócio-fundador da Éxes. Hoje, ele cita que 99% do problema com a Agrogalaxy já está provisionado.
Considerando o patrimônio líquido do fundo de R$ 186 milhões apresentado na última carta mensal, dividido pelas quase 18 milhões de cotas emitidas, o valor patrimonial, ou seja, um tipo de “preço justo” das cotas, seria de R$ 10,38. Com isso, o desconto seria de 20%.
Carneiro cita que a Éxes entrou em 2026 mais animada com o agro, assim como algumas gestoras que voltaram a captar, mas o contexto de guerra, somado aos já conhecidos juros altos e avanço da inadimplência, atrapalhou planos de voltar ao mercado.
Apesar disso, afirma que está confortável com o portfólio e aproveitando para juntar caixa para novas alocações no futuro.
“Estamos super seletivos. Temos caixa, temos operações analisadas, mas hoje existe uma dificuldade de convergência entre o risco que enxergamos e o retorno que muitos empresários ainda estão dispostos a pagar.”
O próprio Artur Carneiro afirma que, apesar do histórico positivo do Xingu, ainda não vê ambiente para lançar uma segunda versão do produto ou lançar um novo fundo.
Enquanto isso, a gestora concentra esforços nos outros dois veículos agro ainda em operação, os fundos Araguaia e Carajá, além da expansão da sua securitizadora criada no ano passado e que já superou R$ 4 bilhões em operações estruturadas.
“A gente sabe que o agro é cíclico. Vai voltar um momento em que as oportunidades ficam mais claras e os consolidadores voltam às compras. Não temos necessidade de investir a qualquer custo e podemos esperar”, disse.
Fonte: AG Feed
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